Até o terceiro ano do ensino médio eu não sabia o que queria fazer da vida. Fui criado de forma até solitária e tive por muitos anos a companhia inseparavável da televisão. Não que não tivesse uma infância feliz e pais ausentes, eu me relaciono bem com eles até hoje.
Mas com o fim do ensino médio exigiram que um garoto de 17 anos escolhesse o caminho definitivo que ele trilharia até o fim da vida (no projeto ideal da sociedade brasileira), e eu, sem o menor interesse por matemática e ciências biológicas, resolvi apostar na área de humanas onde eu me dava bem nas matérias. Com o ideário que me foi martelado quando estava no colégio de que temos de escolher entre medicina, engenharia e direito para ganhar dinheiro, escolhi a última como refúgio achando que lá eu teria alguma facilidade e compreensão.
A única decisão que realmente me arrependo em toda a minha vida.
Prestei Enem e consegui um nota razoável. Obviamente coloquei direito como a primeira opção e na segunda coloquei jornalismo. Era uma ideia remota, mas sempre adorei e admiro o trabalho do jornalista em estudar e estar antenado com as notícias da área que ele gosta (no meu caso, gosto muito de esportes e cultura pop). Tive nesse meio tempo podcasts sobre esses temas do meu interesse, e me identifcava muito com a função que eu exercia. Parecia de verdade para o mundo e era significativo demais para mim, embora não passasse de um hobby.
No fim das contas eu não entrei em nenhuma faculdade de direito pelo Enem, mas fui chamado para cursar jornalismo. Eu hesitei e não fui adiante. Preferi fazer um vestibular numa faculdade particular da minha cidade e passei em 2 lugar. E isso me prejudicou mais, por que o fato de eu conseguir notas razoaveis e boas mostram que eu me interessava pelo assunto quando na verdade eu só me preocupava em não falhar. Entrei na faculdade de direito e com alguns semestres eu descobri que realmente não gostava de tudo aquilo: Ambiente, pessoas, status, matérias… Eu estava deslocado e as poucas amizades que fiz no curso (desconsiderando os colegas eventuais) surgiram pelos gostos em comum de esporte, cinema, livros e quadrinhos.
Eu poderia ter saído, trancado o curso ou me escondido debaixo da cama para não ter que voltar. Mas me deixei acreditar num quase mantra que dizia que "Se você não gosta do curso de direito agora, não tem problema. É normal, com o tempo você se apaixona". Deixei isso me levar apostando que essa iluminação viria e nada. Quando me convenci que estava perdendo o meu tempo e me afundando naquilo tudo, já estava no 8º semestre. Não fazia sentido pra mim cair fora, especialmente por ter todos os gastos que fiz e que terei de pagar futuramente por conta do FIES. Seria uma decepção pros demais que, como falei antes, pela notas e minha quietude sobre o assunto achavam que eu á estava casado com a carreira que escolhi.
Tenho transtorno de ansiedade e passei por momentos complicados ao longo desse período de 5 anos em que estive na faculdade. Os momentos mais complicados que tive de passar. Frustrações amorosas me jogaram pra baixo, o medo de falhar com pais e familiares, medo e frustração de não saber como minha vida seria futuramente, medo de não ser feliz. Descobri na escrita uma forma de aliviar um pouco isso. Tive aulas de redação com bons professores enquanto me preparava para enem e vestibulares e utilizei esse conhecimento a fundo pra escrever projetos de histórias com personagens que compartilhavam das minhas frustrações e anseios.
Com o tempo isso se tornou um cano de escape que me permitia ter mais calma pra encarar esse mar de derrota que eu atravessava. Escrevi um conto e ganhei um prêmio. Amigos e até desconhecidos elogiaram o meu trabalho e eu me senti feliz como a muito não sentia. Minha namorada apoiou esse meu lado artístico e me motiva até hoje a continuar escrevendo.
Entretanto para os demais isso não passa de um hobby. As coisas que escrevi que foram divulgadas em sites, coletâneas e até em eventos da faculdade voltados a arte não passavam disso. Eventualmente chegou o momento de prestar o exame da OAB, e pelas mesmas razões que mencionei acima, passei de primeira e sedimentei o entendimento de que eu estava no caminho certo, enquanto pesava na minha mente que estava dando passos mais largos em direção ao caminho que eu passei a odiar vigorosamente.
A escrita eventualmente evoluiu ainda mais e hoje estou prestes a lançar meu primeiro livro por uma editora. Ainda que não seja renomada, tenho pra mim como a maior conquista da minha vida, e que dedico exclusivamente aquele garoto que cresceu de frente pra TV sonhando com mundos e aventuras, fantasias e histórias. Aquele garoto teria orgulho de mim, embora eu não consiga aproveitar inteiramente essa alegria pelo lugar que me encontro: Sou advogado, prestes a abrir um escritório que não queria, para tabalhar 3/4 do dia com algo que não gosto, falando de coisas que genuinamente não me interessam.
Muitos dizem que ainda sou jovem para recomeçar, tenho 23 anos. E concordo com eles. Mas o dano que carreguei por essa escolha errada me assombra, e por mais que eu queira seguir o meu sonho, eu tenho que sobreviver à minnha realidade. Preciso pagar FIES, escritório e todos os boletos da vida adulta. Eu tenho de sobreviver. Essa é a palavra. E tenho de fazer isso contornando todas as crises de ansiedade de não saber exatamente o que estou fazendo, em algo que não gosto de fazer por quanto tempo sabe-se lá vai ser preciso. Talvez eu ainda pense lá dentro de mim que eu possa me apaixonar por isso, pelo direito e advocacia, embora todo o meu corpo diga exatamente o contrário.
Eu confesso que a escolha errada pelo Direito e Advocacia me tirou toda a alegria da vida. E eu espero, de todo o meu coração, que eu consiga escrever meu caminho para fora desse poço de tristeza e miséria que eu mesmo me coloquei.

