Idos de dezembro, a proclamação da república tupiniquim foi celebrada há alguns dias e o comércio varejista prepara-se para a vinda de mais uma noite natalina.
Celebraremos o nascimento do messias ocidental, pop star de algumas religiões, enquanto encheremos a cara de vinho barato e de cachaça, evitando, por pelo menos uma noite no ano, sermos quem realmente somos.
Mentiremos sobre nossas atitudes altruístas e fictícias, tomadas em prol do auxílio alheio durante o ano a ser findo, enquanto fingiremos suportar e amar, consequentemente, aqueles parentes com os quais nunca nos identificamos.
Penduraremos bolas de plásticos coloridos em pinheiros artificiais, quando a árvore mais próxima que encontraremos será a goiabeira do quintal do vizinho, e passaremos a noite nos alimentando de comidas tipicamente europeias, bem de acordo com a nossa cultura.
Discutiremos o resultado das mais recentes eleições, como excelentes cientistas políticos que somos, já que todo brasileiro é culto de nascença e não precisa ler para se informar.
Daremos as mãos, suadas pelo calor do verão, e repetiremos as mesmas palavras sem sentido que os nossos senhores de escravos dizem, até hoje, serem sagradas.
Assistiremos às crianças esperarem pelo papai, dito Noel, que elas já sabem ser uma mentira e seremos obrigados a aumentar o volume da música de fundo, porque o vizinho, além de ser funkeiro, passou a escutar sertanejo universitário e brega.
Praticaremos os pecados da gula e da luxúria, irados pelo feriado não ter sido prolongado, esperando, entretanto, podermos exercer merecidamente a preguiça no dia seguinte.
Alguns beberão além da conta, se esquecerão das etiquetas e resolverão colocar em pratos limpos tudo aquilo que a família, tradicional e paternalista, proibiu que fosse dito em voz alta, porque, afinal, a verdade só é verdadeira se for dita em claro e bom tom.
Outros invejarão as vestimentas alheias, em segredo, enquanto a maioria simplesmente estará pensando se receberá de volta a mesma meia horrível que deu de presente no natal anterior.
Falarão sobre as futilidades de sempre, farão uma incrível contagem regressiva, disfarçarão e sairão à francesa após a meia noite.
Em geral, os convidados deixarão a casa dos anfitriões imunda, como um chiqueiro, principalmente o banheiro, que terminará a mágica noite urinado, vomitado, com a sua privada entupida e, sabe-se lá, com alguns outros resíduos que dispensam ser mencionados.
Os idosos acordarão na manhã do dia seguinte agradecendo por ainda estarem vivos, enquanto os jovens, se não morrerem na farra, reaparecerão em um ou dois dias, retornando daquele tradicional baile em que vão os adúlteros, os cornos e todos os pagãos.
E, para não esquecer, faremos brindes às eternas amizades e ao companheirismo tupiniquim, aguardando freneticamente pelo dia seguinte para que possamos, finalmente, voltarmos a ser quem realmente somos e retomarmos a nossa rotina diária.
Rotina, essa, amada pelos brasileiros, que consiste em básicos pilares, entre eles:
Assistir a telejornais superficiais e violentos, que prestam um excelente serviço de desinformação e de intimidação.
Assistir a novelas criadas para a divulgação da cultura de massa e para a criação de um padrão comportamental a ser seguido pela população, embora essa seja outra história.
Mentir descaradamente no boteco frequentado pelos machos do bairro quanto às suas peripécias amorosas e ao seu super-salário.
E, por fim, praticar indiscriminadamente os crimes de calúnia, de injúria e de difamação, quando em grupos e sem o conhecimento das vítimas, porque face a face e sozinho esse tipo de gente não tem coragem pra abrir a boca.
Portanto, festeje o natal e seja simples, humilde e feliz como é o povo brasileiro; ou então vá se entupir de medicamentos para suportar essa sociedade hipócrita. Amém.

