Um dos piores momentos da minha vida foi quando tinha 14 anos. Meus amigos e eu encontramos uma gatinha mal tratada perto da nossa escola e ficamos desesperados porque não tínhamos como cuidar dela até que eu tive a ideia de levar-lá pra minha casa. Minha amiga me ajudou a levar a gatinha dentro do ônibus durante o percurso da escola até a minha casa, ela até amenizou a situação quando eu apareci lá em casa com um gato e minha mãe surtou mas ela até foi se acostumando com ele, o problema começou a aparecer quando descobrimos que a gatinha não se dava tão bem com o cachorro que já tínhamos e que bem querendo ou não ela dava gastos a mais. Meu pai não aceitou bem de início e começou a falar coisas do tipo: "Ah eu vou colocar ela na rua, não temos condições de criar um outro animal" não levava a sério porque é algo desumano de se fazer. Foi numa sexta-feira de noite que eu vi o meu pai saindo de casa com uma caixa de papelão com a ração da gata e ela dentro, ele virou pra mim é perguntou se eu queria ir com ele deixar ela em algum lugar por aí, eu disse que sim. Entrei no carro e arrumei a gatinha confortavelmente e enquanto ele dirigia tudo parecia passar devagar, como em um filme, eu via as ruas escuras e sentia o vento típico de uma noite fria imaginando onde deixaríamos ela ou se havia alguma possibilidade de convencer ele manter a gatinha. Até que meu pai estacionou perto de uma praça e encontrou um cobertor no chão, provavelmente de algum morador de rua, e falou pra mim colocar a gatinha em cima da manta com a caixinha e a ração dela, fiz o que ele pediu e me despedi da gatinha e eu juro que foi uma das coisas mais difíceis que o já fiz na vida. Na volta para casa, enquanto eu me afogava em lágrimas no banco do passageiro, meu pai me consolava dizendo que deixamos ela perto de cada com famílias que com certeza iam dar uma casa para ela ou que o dono do açougue da frente adorava animais. "Eles vão pegar ela assim como você fez", ele dizia mas eu sabia que não era verdade e que tinha deixado ela lá pra morrer de frio, sede ou até mesmo fome. Chorei durante dias. Me sentia uma pessoa horrível e até hoje me sinto mal só de lembrar, ficava esperando algum tipo de força maior me punir de alguma forma porque não é algo bom de se fazer, é crueldade. E enfim, convivo com isso até hoje, não por escolha claro, se eu pudesse voltar no tempo e não sei ter saltado daquele carro e fugido com a gatinha talvez ou simplesmente não ter ido aquele dia para escola, claro que eu sou total responsável por meus atos porém preferiria nunca ter conhecido a gatinha do que ter pego e depois ter que abandona-lá de novo sem nenhuma certeza.

