Eu confesso que… Tenho 23 anos, trabalho, estudo, estou noiva. Minha vida está sendo construída, mas se eu paro pra pensar, não consigo me sentir suficiente… Penso que há algo errado comigo. Isso porque, pai, você nunca está aqui. Estamos sem nos ver desde meu aniversário, há dois meses, e por você tudo está bem e tranquilo, mas em mim essa realidade dói. No ano passado você combinou de vir almoçar comigo no dia dos pais e eu te esperei… Com presente em mãos, sentada naquele maldito sofá eu te esperei por quatro longas horas até você resolver dizer que não viria e pelo motivo mais absurdo possível: você estava na casa do pai da sua namorada e ela não te deixava vir me ver. Confesso que poucas vezes na vida me senti tão dispensável, tão pequena e insignificante. Chorei por dias e, então, neste ano me convenci a não te convidar para nada no dia dos pais. Você não sentiu falta e resolvi ficar com minha mãe, mulher sensacional que me criou e me dá apoio sempre, inclusive você não está presente, o que é quase uma regra.
Estou confessando, pai, porque não tenho coragem de te enfrentar e deixar transparecer a carência de afeto paterno à qual você me submete desde sempre. Quero parecer forte e auto suficiente, mas aqui estou às 3h da manhã me sentindo horrível porque você nunca sente nada.
Espero muito, muito mesmo que sua namorada e a família dela te dêem apoio quando você estiver velhinho, espero que te comprem remédios (afinal, você não tem dinheiro nem para comprar os meus), espero que te levem ao médico (afinal, dependo de uber porque você dorme muito), espero que te cuidem (afinal, você jamais cuidou de mim). Desejo a você felicidade e realizações, desejo que se sinta completo e amado porque sei quão ruim é não se sentir assim e, apesar de tudo, não desejo esse sentimento a você.
E quero dizer também que no meu coração você sempre será amado, sempre será prioridade e que estarei aqui quando precisar de mim.
De sua filha.

