Tenho 53, estudei bastante e estou onde queria desde os 25. No Curso Colegial ou Científico, já rapazes, fazíamos grupo de estudos eu e amigos do bairro. Éramos uns 12 e sempre chegava mais alguém. Ocorre que o nosso colega mais inteligente e que servia de professor para a gente, não conseguia passar em várias tentativas. Era frustrante ver alguns entrar na faculdade, outros conseguiam emprego, bolsas de estudo e ele não, mesmo concorrendo com a gente. Ele dizia que dava um branco e não conseguia resolver as questões. Ficávamos tristes por ele e comentávamos o porquê daquilo ano após ano. Os anos passaram e nosso esforçado amigo finalmente conseguiu seu tão almejado emprego público no qual se mantém numa carreira modesta mas estável. Ele fez faculdade após conseguir emprego e casar. Após todos esses anos de experiência e sabendo de outros fatos parecidos com o do nosso dedicado colega, arrisco dizer que a ansiedade e a preocupação constantes era o que atrapalhava o nosso amigo. Ele era brilhante, esforçado,preocupado, tinha todo o assunto na ponta da língua, passava o dia preparando problemas de matemática, física, química e gráficos com que nos testava todas as noites na sala de aulas do terraço da casa dele, quadro negro e giz, e não tinha tempo para curtir um fim de semana . Éramos interessados, estudávamos as várias matérias durante o dia mas saíamos e namorávamos ou viajávamos nos fins de semana e hoje percebo que esse é um componente do sucesso: NÃO SATURAR A MENTE. Em nossa última reunião a 5 dias das provas de mais um concurso, a turma resolveu de surpresa encerrar as aulas e levá-lo para jantar. Ele nos acompanhou no passeio mas não escondia sua preocupação com os livros. Alguns conseguiram ser aprovados, ele não mais uma vez. Hoje entendo que faz parte do preparo dar uma relaxada de vez em quando. Se estudou e aprendeu, o assunto vem à memória não importa quanto tempo haja transcorrido.

