Eu confesso que… odeio os empregos que vou conseguindo. Empregos, não! Trabalhos. Odeio ter estudado, ter tido boas notas, ter-me matado a estudar, ter tirado uma licenciatura com boas notas estudando de noite e trabalhando de dia e, porque venho de família pobre e sem cunhas, não conseguir um emprego num país corrupto e sem trabalho.
ODEIO trabalhos de seis meses em call centres sem o mínimo de condições, com vacas leiteiras a berrar para eu vender mais, com supervisores nojentos sempre a assediarem-me.
ODEIO entrar em qualquer partição pública e ver gente menos formada, menos competente e menos merecedora daquele emprego que eu, sentada a pintar as unhas (SIM, ISTO É VERÍDICO) enquanto atende as pessoas ou, pior, dizer que não sabe resolver o assunto porque tem demasiadas coisas para fazer para ainda perder tempo em se atualizar com as mudanças no seu trabalho (isto também aconteceu).
Odeio não ter ficado no único emprego que gostei porque quando chegou o dia de renovar o contrato, a idiota ao meu lado abriu as pernas ao chefe e eu não.
Odeio não ter dinheiro para emigrar, mas também não o vou fazer sem ter a certeza que tenho emprego: se é para morrer de fome, morro na minha terra.
Tenho um namorado de sonho com um emprego estável, que me apoia e compreende e nunca me lançou à cara a situação em que estou. Mas ODEIO ser dependente: o meu namorado não tem de me ajudar a sustentar, é suposto sustentar-me SÓZINHA.
Não tenho ânimo para ir para aquela sala sufocante, enfiar o phone no ouvido e ouvir gente malcriada do outro lado. Não tenho ânimo nem para dormir.
Cerro os dentes e aguento, porque a miséria que vou conseguindo nessas merdas de trabalhos é o que me afasta da miséria total. Cerro os dentes e aguento porque ele não merece que eu reclame e que dê menos do que tudo o que tenho para dar à nossa relação.
Sei que devia agradecer o que vou arranjando porque muita gente nem isto arranja… Mas estou verdadeiramente na fossa.

