Eu confesso que acho que sou um grande azarado. Tenho quatro fardos que carrego e que atormentam-me a cada dia: 1)Minha religião, 2) minha condição social, 3) minha sexualidade e 4) meus traços étnicos. Sei que alguns de vocês podem achar que estou com frescuras, mas apenas eu sei o que sinto. A seguir, explicarei cada um desses meus problemas detalhadamente.
1) Sou membro de uma igreja muito tradicional, mas sou ateu escondido. Minha mãe me obriga a frequentá-la, mas eu odeio ter de ser um membro dela. As pessoas da minha religião me irritam, eu ouço muita besteira religiosa sendo falada por elas. Sou um ávido leitor de livros e gosto de usar meu racionalismo com o maior rigor possível, e, por esta razão, acabei achando vários erros nas crenças de minha igreja, e isso me perturba e me faz querer abandoná-la de uma vez por todas. Não quero passar a imagem de religioso para as pessoas, pois, se sou ateu, por que tenho de me classificar como religioso? Em minha escola, digo que não tenho mais religião, mas tenho de que, um dia, meus colegas saibam de minha verdadeira condição religiosa. No entanto, eu estou preso à minha igreja. Minha mãe não me deixará agir conforme penso, e tenho medo de encarar os líderes de minha igreja para contar-lhes o que penso de Deus e da doutrina cristã.
2) Sou filho de um cobrador de ônibus e de uma costureira. Não temos carro, apenas uma moto, e nossa casa e demais bens que possuímos foram comprados com MUITO sacrifício. Nossa casa não é das mais feias, mas é bem humilde. A questão é que, desde que ganhei uma bolsa integral na escola particular em que estudo atualmente, tenho contato com pessoas cuja classe social é mais elevada que a minha. Os alunos do meu colégio não são ricaços, mas têm, pelo menos, uma razoável vida de nova classe média brasileira. Sabe como é: passeios toda semana, carro, casa razoável, etc… Mas eu, eu! Eu apenas quero que minha casa seja arrumada e que tenhamos um carro popular na garagem, e isso não é difícil de ser conseguido. Temos um terreno que estamos tentando vender, mas parece que nunca conseguiremos obter dinheiro com ele e dar um jeito em nossas vidas. Acordo às 5:40 da manhã para pegar ônibus e ir para a escola, meu pai às 4:00, minha mãe e meu irmão pequeno às 6:00. Eu sempre fico caçando maneiras de disfarçar minha pobreza. Esses dias, fui à uma pizzaria no centro cidade com os uns colegas da escola. Foi horrível! Meu pai me levou de moto até lá, e voltei de carona com um dos pais dos meus colegas. Quando fui ir embora, eu disse ao condutor do carro para parar em frente à casa de uma tia de mentira minha, pois não queria que meu colega visse a aparência de minha casa. Quando o carro se afastou, eu fui correndo até a minha casa, e tive de justificar para minha mãe o porquê do carro não ter parado em frente ao portão de nossa casa.
3) Sou gay, mas ninguém sabe disso. Fico horrorizado ao pensar que, quando eu atingir certa idade, as pessoas irão me pressionar para que eu me case. Minha família é tradicional, não posso falar de minha sexualidade para eles. Além disso, eu sempre me pego pensando em outros rapazes, e isso me dá nojo. Por ser ateu, no entanto, não acredito em pecado, mas minha sexualidade me dá nojo mesmo assim.
4) Meu pai é descendente de holandeses, loiro, de olhos azuis e traços caucasianos. Minha mãe, porém, é afro-descendente. Desta união eu nasci. Minha pele é bem clara, meus cabelos são lisos e meus olhos são claros, mas meu nariz, minha boca e o formato de meus olhos denunciam o sangue africano que circula em minhas veias. Eu me sinto, por vezes, muito feio, e passei a odiar a miscigenação racial. Quando em público, vivo apertando meus lábios para que as pessoas não reparem meus lábios grossos, e essa técnica, acredite, funciona. Mas é horrível! Chamem-me de racista, preconceituoso ou de qualquer outro título pejorativo: Eu não me importo, apenas sofro.
Os meus sentimentos estão gerando cada vez mais angústia no peito. A realidade sempre parece me dar coronhadas na cabeça, e eu tento disfarçar minha angústia lendo livros e ouvindo muita música, mas os quatro monstros da minha existência estão sempre ao meu lado para me entristecer. Escrevo muito bem, até tenho um livro, mas eu não estarei equilibrado até que toda a minha angústia morra.
Desculpe-me pelo texto longo, eu precisava desabafar com alguém. Obrigado.

