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Perdido

Como filho único de mãe solteira e trabalhadora, acho que deveria ser fácil perceber que o meu fardo nessa vida seria a solidão. Minha história é longa e triste, e cada pormenor a torna ainda mais triste, então eu vou tentar resumir. Eu nunca me senti atraído sexualmente por homens. Mas quando era criança, fui abusado sexualmente por um dos meus primos. Foi um abuso físico, porém leve, não houve penetração, e ambos ficamos excitados sexualmente. Meu primo me forçou, e no começo eu não entendi, ou estava em negação, mas depois eu investi como ele e gostei. Nunca toquei nesse assunto com ninguém, nem nunca tive culpa ou trauma a respeito do episódio, a ponto de chegar a me perguntar se realmente havia acontecido, como uma memória que eu lutava para reprimir. Não sei se isso foi consequencia ou causa de eu, quando criança e adolescente, sempre ter tido trejeitos que os outros meninos consideravam afeminados. Mas eu sempre fui hetero na cabeça. Fora esse epísodio, todo o resto da minha descoberta sexual foi com meninas e mulheres, e minhas fantasias giraram sempre em torno delas. De qualquer maneira, esse “comportamento” que eu adquiri sem querer, e sobre o qual não tinha nenhum controle, teve um alto custo social. Eu nunca tive muitos amigos da minha idade durante esse período, e sempre procurei companhias mais velhas. É aí que entram duas pessoas importantes: Meu melhor amigo e o amor da minha vida. Meu amigo era um moleque da minha rua, da minha idade que tinha dois irmãos, e com quem eu criei um laço afetivo tão rápido e tão forte que quis fugir de casa quando minha mãe precisou se mudar daquela rua. O amor da minha vida era uma menina com a qual eu brincava de salva-vidas, pela qual me apaixonei logo aos 13, 14 anos de idade, a mesma que me dispensou para ficar com outro cara, tão logo eu disse que a amava. Pois bem, ela foi morar em outra cidade, e a distância me separou desse meu amigo, e eu, procurando um lugar pra me encaixar, virei punk. E no submundo do punk, das ruas, eu fui apresentado à humilhação pública, à desonestidade, à covardia, e às drogas. Foi uma época problemática para mim e toda a minha família, já que eu comecei a roubar coisas dentro de casa, mentir, omitir, pegar a mulher dos outros, pondo minha vida em risco, dever a traficantes e discursar asneiras políticas e religiosas. Era chocante para todos, já que me conheciam como uma criança inteligente e honesta. Sofri muito, e fiz quem eu amo sofrer. Pois bem, por essa época minha mãe achou meu pai, e decidiu que deveríamos nos conhecer, já que ele obviamente estava fazendo falta na minha vida, nos conhecemos, e nos vimos pela primeira vez no ap dele em brasília, não demorou muito pra ele começar a gritar comigo e dizer que com apenas dez dias ele mal conseguia me aguentar, imagine a minha mãe, todos esses anos. Pra resumir a história com meu pai, mesmo depois de 16 anos de ausência, ele me humilhou publicamente diversas vezes, ameaçou de me bater algumas outras, e mostrou seu enorme egoismo o tempo todo. nunca me deu um centavo. Pra nada. nem pra estudos, nem pra fraldas, pra nada. E eu, todo carente de amor paterno mesmo, buscando a aceitação dele, só pra levar patadas. com suas próprias palavras ele dizia q era mais duro comigo do que com todos os outros filhos q ele conhecia desde a infância e tinha ajudado a criar! Até que um dia eu me fartei da loucura dele (eu realmente acho que é meio louco) e parei de falar com ele. Quanto ao amor da minha vida, ela voltou à cidade depois de 5 ou 6 anos, e nós passamos a nos ver. E a ficar. De início eu percebi que ela não queria nada sério, mesmo sabendo que eu tinha sido apaixonado por ela todos esses anos ( ela foi pra outra cidade mas não perdemos contato, e não foram poucas às vezes que entre lágrimas eu disse que a amava.) Logo eu descobri que ela estava ficando com outros caras também, e por mais que eu gostasse dela, aquilo era demais pra mim, e eu decidi que não ficaria mais com ela, a não ser que ela ficasse só comigo. Ela consentiu, chorando, desde que eu não dissesse a ninguém que agente namorava, não quisesse andar de mãos dadas na rua nem nada parecido. vocês podem chegar às suas p´roprias conclusões sobre o que isso parece, mas pra mim, parecia que ela não me amava. na verdade, eu sabia que ela não me amava. Nosso relacionamento foi cheio de inseguranças, ciúmes, frustrações, e repetidas humilhações. Tenha em vista que isso é um RESUMO, a história toda é muito pior do que se possa crer. Enfim, eu concordei que era melhor não nos vermos nunca mais, pelo bem de nossa saúde mental. O que nos leva ao último personagem: meu melhor amigo. Mesmo depois de separados, voltamos a nos reaproximar com 15, 16 anos, e desde então nunca mais nos separamos. éramos unha e carne, batman e robin, john e paul, whatever. Ele era como um refúgio, quando eu sentia que todo o resto do mundo havia me abandonado, sempre havia ele pra me fazer rir disso e me fazer sentir inteligente, valioso, simplesmente por fazer parte dessa amizade tão velha e tão verdadeira. De uns tempos pra cá a vida andava extremamente estressante, com nós dois desempregados e fora da universidade, a pressão social ao nosso redor esteve mais forte do que nunca, e a pura falta de dinheiro tornava as coisas muito piores. Não ajudava que ele tinha terminado com a única namorada pela qual se apaixonou, e eu, desde que havia acabado horrivelmente a relação que eu achava que era pra vida inteira, fiz sexo com apenas duas mulheres e as duas significando e contando absolutamente nada. Estávamos (estamos?) estressados, irritados e deprimidos com toda essa situação, e começamos a brigar. por qualquer merda mesmo. Simplesmente por conviver demais, e ter intimidade demais pra temer falar qualquer coisa que fosse.Mas a maior parte das brigas era sobre um outro cara que tinha entrado no nosso grupo de amigos, do qual eu não gostava nem um pouco. acabou ficando sério quando vi todos os meus amigos programaram uma viagem e nem sequer perguntaram se eu queria ou teria como ir, na minha frente e na minha casa. Eu passava por problemas de grana que todos eles sabiam, então fiquei magoado, mas não questionei. E depois eu descobri que o tal cara que eu não gostava, e que era relativamente um novato no grupo tinha ido, e às custas do meu melhor amigo, coisa que no passado eu já havia feito por ele mais de uma vez, eu considerei uma traição. E comuniquei a minha insatisfação. brigamos feio, e agora ele parou de vir aqui em casa e de andar comigo. Agora eu estou sem pai, sem mulher à qual eu ame, sem emprego, sem carreira e sem amigos verdadeiros. Se você conhecesse a minha história em detalhes, saberia que não é nenhum absurdo eu ter considerado o suicídio várias vezes. Mas eu não vou me matar. Só queria compartilhar uma fração de toda essa solidão, para que talvez assim eu não me sinta tão só. Acho que ninguém vai ler tudo, mas é basicamente isso, poupando os detalhes sórdidos.

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Escrito por Anônimo

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