Não sei mais o que fazer, já estou me desesperando…
Sou mulher, negra, pobre, e ainda estou desempregada. As pessoas dizem que o preconceito não existe, mas só quem sofre preconceitos todos os dias sabe do que estou falando. Não sou uma encostada. Não recebo beneficios de governo, aliás, nunca ganhei nada de ninguém, nem mesmo de parentes!
Faço faculdade, sou uma mulher instruída, crítica, reflexiva. Amo a vida e quero curtir muito. Sou casada, não tenho um monte de filhos,aliás, nem tenho filhos; não tenho baixa autoestima, ao contrário, me amo como sou e penso que quem queira estar perto de mim tem de me aceitar como sou. Discuto sobre qualquer assunto e sinto dentro de mim uma capacidade e um potencial incríveis, que não consigo colocar pra fora.
Por ser pobre, tento estudar por conta própria; estudo em casa,inglês britânico, alemão, espanhol e turco. Em um ano de desemprego, saio de casa pelo menos quatro dias por semana para procurar trabalho. Tenho currículo em sites,entrego também pessoalmente, uso os contatos com amigos e parentes, mas não consigo nada!
Apesar de ter instrução suficiente e um currículo com diversas profissões,as únicas propostas que me chegam são de empregada doméstica e ajudante de cozinha!
Não tô desmerecendo quem trabalha com isso, até porque já fui doméstica e já fiz freelancer em restaurante pra viver; mas porra, já tenho outras funções e habilidades, curso ensino superior, corro atrás pra caralho e não ganho nada fácil. Aos trinta e tantos anos de idade nem sequer conseguí realizar um sonho simples: tirar minha habilitação. O dinheiro nunca dá. Ajudei tanta gente a realizar sonhos. Ajudei tanta gente quando estavam no perrengue. Hoje, estão bem e fazem questão de me pisar e dizer que sou uma coitada. Corro atrás de estágio, batem a porta na minha cara; corro atrás de emprego, dão a vaga pra outra pessoa com menos instrução, porque é loira e tem olhos claros. Isso já me aconteceu diversas vezes. Em alguns lugares, nem sequer me recebem.
Se fosse falta de correr atrás tudo bem, mas como vocês vêem, não tenho preguiça, corro pra caralho, não tenho vergonha, não tenho medo, não sou inibida!
Só não quero fazer nada desonesto pra viver, não quero chegar a extremos como prostituição ou golpes, sei lá.
Muitas vezes vejo o preconceito das pessoas me fechando portas. Até praticando esporte, no calçadão perto de casa com meu esposo ( que também é negro), as pessoas atravessam a rua, como se fossemos bandidos. Isso porque nos vestimos bem e nos portamos com educação em todos os lugares.
Estou sentindo nojo dessa sociedade ridícula e perversa. Enfim, tenho vontade de chorar e não sei mais o que fazer…por favor, me dêem uma opinião.

