Eu estou muito triste. Há anos não consigo me aceitar, não consigo me respeitar, não consigo me libertar. Meus anos estão repletos de solidão. Sou um poço de carências. Minha alma é de um azul cinzento.
Transpiro o falso equilíbrio. Atrás dos meus olhos uso o filtro da mágoa. Cobro caro pelos "meus serviços" e, consequentemente, recebo pouco, geralmente com atraso.
Os momentos mais felizes foram os mais solitários. Era só eu. Isso me dói muito. Sou fraco e não consigo me satisfazer com a presença de meu Deus. Perdão, meu Senhor, perdão.
Tenho medo do futuro. O presente é um remédio ineficaz que não cura as dores que o passado deixou. Mantenho uma mente sã graças aos devaneios que, de hora em hora, me desconectam da realidade.
A família é meu vício. São o entorpecente que cada vez menos me dá prazer. Quanto mais me fazem sofrer mais eu os quero perto de mim. São minha última ligação (mesmo que deprimente) com o existir, com o fazer parte de um grupo.
A inveja que sinto de tudo e todos corroe meu coração. Sou cada vez mais apático ao sofrimento alheio. Sou razo, falso, pouco. Desinteressado e desinteressante. O pouco valor que atribuo a mim é abalado quando recebo um elogio sincero. Quero ser e dar o melhor a quem me cumprimenta com um sorriso despretencioso no rosto.
Sou feio, simplório. Me vejo através dos julgamentos das pessoas que tento alcançar (inutilmente).
Falo sozinho na maior parte do dia. Ouço muito. Infelizmente, não escuto o que mais eu gostaria: "Oi! Como foi seu dia? O que você fez?". Sinto um aperto (já devia ter me acostumado) quando percebo a falta de disponibilidade do outro quando estou contando que fiquei feliz por tirar uma nota boa num exame.
Sou gay.
Foi um alívio me revelar gay. Um peso saiu das minhas costas. A minha família não aceita, acham que é uma fase. "Você não sabe chegar em uma mulher". Mais uma inveja: a de não ser aceito e não me aceitar.
Sou pessimista. Duvido que vou encontrar alguém que me veja por baixo desse manto de vitimismo. Uma vez me gostei de um cara que só sentiu dó de mim e se afastou rapidamente depois que eu me declarei. Naquele momento vi que nunca vou receber de ninguém o que eu mesmo não consigo me dar.
Quero a solitude plena. Acho que isso significa querer a morte.
Eu quero a morte.

