Semana passada voltei do trabalho, cansadíssimo, com as mãos sujas de graxa, requisito de meu trabalho de mecânico. Deitei na poltrona, relaxei e apoiei os coturnos na mesinha de vidro sobre nossa toalha de caxemira chinesa. Nisso vem minha esposa, Adrilene, toda esbaforida, reclamando de tudo, chiando de serviço doméstico, enfim, aquela papagaiada de mulher. Como bom varão, dei-lhe um berro no ouvido avisando que eu já fazia muito serviço e ela não prestava nem pra passar vassoura na sala, fiz menção de dar um tabefe e então ela se foi. O pior é esta mulher inventando desculpa, serviço do-lar é mole, quero ver se Adrilene aguenta um dia na oficina. Na hora da janta, adivinha só? Não fez nada. De novo pensei em agredi-la. Meu vizinho da frente é policial e católico, outro dia baixou aqui, vindo falar de direitos da mulher e outras asneiras, por isso penso três vezes antes de educar minha esposa. Às vezes escapa o ato impulsivo, sou mesmo pavio curto, mas é esse estresse, corrupção, efeito estufa, etc.
Enfim, fui ao pé-sujo do bairro comer um xis-beicou com batata frita, juntar com os amigos e pôr o papo em dia.
– É isso aí, Claudio Manoel , vida de casado é um martírio.
– Vai morrer sozinho, Arlei?
– Não, mas contrato as profissionais, ‘cinquenta conto’ a noite e não torram a paciência.
Arlei era também protestante, mas meio desviado, era da altivez de um rapagote e costumava juntar com estas mulheres da vida. Muitas vezes depois de educar minha mulher pensei em vingar-me dela com outra, traição sabe, mas não tenho coragem. Sou excelente esposo e me dói a honra esses assuntos de adultério e libertinagem.
Outro dia, cheguei mais cedo em casa e Adrilene lá não estava. Perguntei às redondezas e Cláudia, minha vizinha, esclareceu:
– A Dri anda vendo um médico.
– Médico? Mas médico de que?
– É medico da cabeça. De louco.
Pois é, na hora também não entendi nada. Fui a nosso quarto, meti a mão em sua gaveta, revirei todos os objetos pessoais, até aparecer este cartão amarelado com as iniciais: Doutor Mauro Teixeira, psicanalista. Alguns minutos mais tarde, Adrilene voltou em casa, transtornada com estes ridículos préstimos das atividades médicas.
– Como foi o doutor?
– Mas que…?
– Não se faça de besta, mulher, ando sabendo de muito aí.
– É terapia, está na moda, toda atriz e cantora faz. É muito bom pra aliviar a depressão.
Eu sou da época em que se curava depressão com soco na narina, cotovelada na omoplata, jiu jitsu no umbigo, etc etc. Nunca imaginei ter minha esposa adepta destas modernidades estúpidas.
– Foi me culpar pro médico, é?
– Eu falo de tudo, e sim, falo de você, às vezes.
Fiquei possesso, Neste momento por um acaso misterioso do destino minha esposa "escorrega em uma casca de banana" e bate a cabeça na cama, tem múltiplos traumatismos e é hospitalizada.
É difícil ser um marido edificado. Mas não desisto. Um dia endireito esta mulher.

