Quando eu estava no último ano do ginásio eu tinha uma melhor amiga, mas já naquele tempo eu estava enjoada dela, embora essa seja uma palavra horrível. Não tínhamos mais nada haver em interesses e então no ensino médio nos separamos e voltamos a nos encontrar no último ano escolar. Nos comunicávamos pouco no tempo que ficamos separadas e quando voltamos a andar juntas já não nos entendíamos muito bem e ficávamos juntas mais por obrigação, e talvez pra não ter que admitir que a amizade acabou, ao menos pelo que me parece. Acho que isso tem muito haver com o colégio que ela foi estudar, onde só tinha gente mesquinha metida a rico, e como ela já tinha um gérmen de querer ser popular, a transformação foi inevitável. Na época em que andávamos juntas ela costumava ser muito mais legal e mais inteligente (ela sempre foi bonita). Com isso quero dizer que ela tinha curiosidade pelas coisas, por mistérios, discutia filmes e tinha uma visão maior do mundo, levando em consideração a nossa idade na época. Agora ela se tornou exatamente tudo que ela criticava, e ainda critica, nos outros: virou piriguete, tem 1000 fotos narcisista no facebook, não se dá ao valor e deixa os vários amigos homens lhe chamarem de “vadia”, “eu-quase-comeria” etc., de “brincadeirinha” é claro, com aquela pitada irônica que ela parece não ver. Assiste esses lixos da TV, adora BBB e as únicas notícias que ela entende são sobre artista sem talento exaltados pela mídia, enlatados americanos, escândalos e coisas do gênero. Eu não sei como alguém pode viver assim. Sinto muita saudade dela, mas uma saudade enorme, não do que ela se tornou hoje, mas sim da amiga que eu fiz na infância. Mas é um tempo que não pode mais voltar. Nem sei porque estou escrevendo isso, ela não vai ler mesmo. Queria muito dizer pessoalmente, mas nosso distanciamento está tão grande que nem a amizade de antigamente me daria liberdade de dizer isso sem ofender e ela ainda diria que é inveja.

