O primeiro passo para ter uma relação com qualquer pessoa, é ter um motivo que os impulsione, seja um sentimento de afinidade, cumplicidade, confiança, enfim. Mas não acredito propriamente que seja necessário haver paixão. Quando o momento é propício, surge a vontade e os dois querem, é aí que acontece. A paixão pode surgir como conseqüência, mas é uma causa. No início de 2005, com 28 anos de idade, estava noiva do Otávio, quando fui contratada para trabalhar em Cuiabá. O Otávio conseguiu um emprego na mesma cidade e em três meses ele foi embora para Cuiabá. Resolvemos morar juntos e depois de algum tempo nos casamos no civil, sem festa, sem convidados e sem parentes, afinal não queríamos mesmo nenhuma comemoração. Nos cinco anos que namoramos, mesmo morando a 200km de distância um do outro e nos vendo uma vez por semana, as vezes a cada 15 dias, nos dávamos muito bem e nosso amor bastava. Em Cuiabá, no novo emprego, eu era Gerente Comercial de uma empresa industrial em fase de implantação. Trabalhava muito e tinha muitos entraves devido à contratos recentes e um processo operacional pouco sólido. A maioria dos meus contatos eram de São Paulo. Um cliente, especificamente, era responsável por um dos meus maiores contratos e o que eu tinha mais problemas. Diariamente, diversas vezes, falava com o contato desta empresa, o Pedro. Com o passar do tempo, eu e Pedro nos tornamos amigos, mesmo sem nos conhecer pessoalmente. Os problemas no trabalho que nos mantinham sempre em contato nos aproximou, sempre nos relacionamos muito bem profissionalmente, com tanta cordialidade, que as dificuldades eram sempre superadas de forma satisfatória para ambos. Certo dia, pra minha surpresa, ele perguntou se eu era do Mato Grosso mesmo e assim começamos a conversar. Essas conversas triviais se repetiram diversas vezes, conversávamos sobre tudo. Ele sabia muito sobre mim e eu sobre ele, que morava com os pais e tinha uma noiva. Com o tempo, o trabalho, a rotina e as cobranças, meu casamento entrou em crise. Estava acostumada, durante os cinco anos de namoro, a ver meu marido esporadicamente. Eu tinha a minha casa e ele a dele. Quando nos encontrávamos, os problemas ficavam de lado e era só o amor que falava. O sexo era perfeito e transávamos diversas vezes durante o dia, em qualquer lugar, fora que íamos a motéis com freqüência. Com o casamento, as manias de um incomodavam ao outro, os problemas de trabalho iam para casa e as vezes até para a cama na hora de dormir. Quando estávamos os dois em casa, não havia diálogo pois a TV e o computador tinha mais importância, aparentemente. Não saiamos mais juntos, não freqüentávamos motéis e o Otávio tornou-se extremamente possessivo e ciumento. Nosso relacionamento estava me sufocando e eu só queria fugir. Depois de depois o Otávio mudou de função e passava mais tempo viajando do que em casa, e eu me sentia cada vez mas só a carente, porém nunca sequer pensei em ter um caso extra conjugal. Na época das auditorias na filial da empresa que o Pedro trabalhava, ele veio de São Paulo para Cuiabá acompanhar as atividades, e claro, foi fazer uma visita na empresa em que eu trabalhava para me conhecer pessoalmente. Ele não era nem feio nem bonito, mas seu jeito, seu sorriso franco e seu olhar maroto são cativantes. Conversamos muito, almoçamos juntos e a partir daí nossa amizade fortaleceu-se. Trocavamos emails diariamente e contamos um com o outro para dividir os problemas. Nos momentos de dificuldade pessoal, telefonávamos um para o outro, pois eu tinha o celular pessoal dele e o telefone residencial, assim como ele tinha meus números. Assim foi até que conclui meu mestrado e comecei a dar aulas em uma universidade e saí da empresa em que trabalhava para prestar consultoria. Uma nova rotina iniciou-se em minha vida. Novos contatos, novos amigos, novo número de celular e lentamente eu e Pedro nos afastamos. Muitas outras coisas aconteceram no meu casamento, entre elas, uma funcionária do meu marido apaixonou-se por ele e eu os flagrei abraçados, porém ele jura que não houve nada, e depois de uma semana ele a demitiu. Outra vez soube que ele tinha uma amiga e que marcava encontros escondidos com ela, além de trocar emails melosos dizendo que encontrá-la pessoalmente era mais gostoso do que conversar por email, e em mais este caso ele jurou que não aconteceu nada, apesar de confessar que pensava nela. Com esses episódios decidi me separar e cheguei a alugar um apartamento pra mim. No dia que comuniquei a ele minha decisão, choramos muito, lembramos do tempo de namoro e noivado, das viagens que fazíamos juntos e todos os momentos bons. Em uma semana voltei pra nossa casa e tentamos recomeçar nossa história. No início de um novo ano letivo na Universidade, tive um aluno que trabalhava filial da empresa do Pedro, e perguntei se ele o conhecia. Meu aluno disse que sim, e que o Pedro não trabalhava mais em São Paulo, que havia sido promovido e que há cerca de 04 meses estava morando em Cuiabá, e que era o novo diretor regional da empresa. No dia seguinte, recebi a primeira ligação do Pedro depois de tanto tempo de afastamento, conversamos por quase uma hora sobre o que aconteceu em nossas vidas durante este período e ficou a promessa de nos encontrarmos em breve. Marcamos de almoçar juntos e passamos a tarde toda juntos colocando o assunto em dia. Ele me disse que havia terminado com a noiva, que estava muito sozinho, que não entendia porque nenhum relacionamento dele dava certo, falou nos novos planos profissionais e da família. Cheguei em casa leve e contente, enfim, alguém para dividir as angústias que pesam na alma. A alegria durou pouco. Quando contei para o Otávio que havia reencontrado o Pedro, aquele velho amigo, meu mundo ruiu. Foi a primeira vez que vi meu marido transtornado daquela forma. Ele disse coisas horríveis, me humilhou me chamando de nomes impossíveis de serem repetidos, jogou na minha cara que as outras mulheres tinham sido melhores do que eu, me pegou pelos braços, me sacudia como se eu fosse um boneco de pano. Meus braços ficaram vermelhos e doendo, acredito que mais um pouco teria quebrado. Não conseguia mais sentir raiva dele. Senti uma fraqueza muito grande. Uma sensação de fracasso e decepção por ter deixado as coisas chegarem a este ponto. Senti pena dele quando ele transtornado trancou-se no quarto. Liguei para o Pedro chorando, e ele prontificou-se a ir me buscar. Conversamos, ele me deu apoio, e procurou até fazer piada para me fazer rir. Fomos para a casa dele que muito atencioso, fez de tudo para que sentisse bem e não tomasse nenhuma decisão precipitada. Disse, inclusive, que era para pensar em Otávio como alguém que cometeu erros, se arrependeu, e que agora tem ciúmes e medo que eu cometa os mesmos erros que ele, mas não sabe como reagir diante os problemas. Num momento em que eu já estava mais relaxada, de total cegueira emocional, sem que eu pudesse imaginar que algo parecido estivesse na iminência de ocorrer, trocamos nosso primeiro beijo. Sem que nenhum dos dois pudesse raciocinar com clareza, trocamos carícias mais profundas. De repente, Pedro com a voz rouca me pergunta em um sussurro quase inaudível: “faz amor comigo?”. Eu não respondi, apenas me afundei em seu braços. Fizemos amor. Um amor romântico, carinhoso e delicado. Senti um prazer que há muito não sentia. Senti-me profundamente desejada. Naquela noite dormimos nus e abraçados. Por cerca de duas semanas fiquei em um hotel, encontrando-me com Pedro regularmente, quando sempre terminávamos na cama, e nos entregávamos ao prazer. Não havia paixão entre nós, muito menos amor. Em uma manhã de domingo Pedro me levou até minha antiga casa para que eu tivesse uma conversa com Otávio e decidisse o que faríamos de nossas vidas. Eu queria o divórcio. Pedro me pressionava para que eu me separasse. Quando encontrei Otávio em casa, revelei onde estive, mas não contei o que aconteceu entre eu e Pedro. Depois de muita conversa, decidimos tentar mais uma vez, e mesmo com altos e baixos, passou-se um ano e continuamos juntos ate hoje. Otávio oscila entre o perfil gentil e romântico, e o estressado, impaciente e insensível. Vez ou outra me bate a dúvida: será que deveria ter continuado casada? As vezes amo meu marido, outras estou extremamente cansada daquele tipo dependente e inconstante. Pedro continua me ligando, mandando mensagem, email, mas não quero mais vê-lo. Não porque fomos pra cama, mas porque descobri que estava apaixonada por ele, chegando, inclusive a cogitar a possibilidade de sermos felizes juntos. Ele se declarou apaixonado, mas toda a confiança que eu tinha nele, não sei por que motivo, acabou quando nos entregamos. O fato é que ainda penso no Pedro, penso nos bons momentos que passamos como amigos e também como amantes. Pedro tem 40 anos, é um homem bem sucedido, e ainda solteiro. Esperando, segundo ele, por alguém que nunca virá.

