Eu confesso que me sinto discriminada. Tenho 48 anos sou mulher, negra, estou gordinha. Cursei até o segundo ano de letras, cheguei a ministrar aulas de portugues em 1998, uma experiência e tanto, mas gostei. Deixei a faculdade porque pela segunda vez ou alimentava minhas filhas ou continuava a estudar. Sei que é um grande problema nesse país ser mulher, negra, pobre e ainda por cima estar acima do peso. Estou desempregada, e acho isso injusto, porque sou muito dedicada em tudo que faço, trabalhei em 2004 no projeto da prefeitura de são paulo CAPACITA SAMPA, onde eu instruia jovens de 16 a 20 anos para o mercado de trabalho, ensinando portugues de uma forma gostosa. Jovens carentes, com problemas de baixa estima, com problemas sociais gravíssimos, por conta própria trabalhei a estima desses jovens, falamos da violencia e exploração da mulher, do trabalho infantil, da importancia sobre a conservação do patrimônio público, a discriminação, a pedofilia, e tantos outros pontos. No comesso fiquei chocada com a quantidade de problemas que essas cabecinhas tão jovens carregam, e expressam isso através da violência, do radicalismo, da rebeldia. Mas fui me aproximando, ganhando cada um com carinho, amor, me colocando no lugar de cada um, e os ganhei a todos. No final de parte do projeto, final do meu contrato que foram dois meses, foi uma choradeira só. Apegaram-se a mim de uma forma que fiquei emocionada e não tinha como não chorar. Eu era mãe de todos eles. Até hoje tenho bilhetes que recebi de despedida. Muitos colegas que trabalharam comigo na época foram tomados de ciúmes, inveja e até revolta porque os alunos me veneravam nos corredores, e eu respondia a todos de igual pra igual. Mas a inveja está em todo lugar fazer o quê. Acho que nasci com esse dom. Mas .. não pude mais trabalhar com esses jovens, porque não pude terminar a faculdade. Muitos podem perguntar: mas tem o pró-uni, não consegui nota suficiente uma vez que fiz a prova. Esse projeto que o governo do Lula de desconto em faculdades, não posso entrar, me formei no segundo grau em 1984, supletivo particular, só participa dos descontos quem fez escola pública e na época não havia supletivo gratis como hoje. Eu fiz particular porque já tinha 20 anos e estava um pouco tarde para fazer normal, e além do mais eu precisava trabalhar e muito pra não faltar as coisas em casa. Na época minha mãe estava morrendo então estava muito dificil. Enfim.. hoje estou só, sem trabalho decente, que digo, carteira sem registro, ninguem acredita no meu potencial. Sou articulada, tenho redação própria, boa dicção, sei tratar com as pessoas, boa digitação, sou observadora, sensível, criativa mas todo lugar que vou atrás de uma vaga em que acho que me encaixo ou que realmente eu goste, a resposta é sempre a mesma… entramos em contato, Isso nunca acontece. Acho que idade não ajuda, minha cor, não sou loira, nem modelo, nem falo lingua estrangeira. Pra não morrer de fome, vou trabalhar como diarista, limpo casas, apartamentos, em troca de 60 reais a diária. Como tenho fibromialgia, chego chorando de dor em casa, tomo dois analgésicos e vou dormir, afinal amanhã é sempre é outro dia, risos. Mas é difícil, já fui muito discriminada em empregos anteriores, a ponto de me chamarem de negrinha bem baixinho pra não chamar atenção dos outros, chorei apenas, não porque sou negra, mas porque enchergaram a minha cor. Não sou apenas cor, sou um ser humano em primeiro lugar. Amo os animais cada dia mais, porque esses nos aceitam incondicionalmente. Sou mulata avermelhada, mas tenho história viu, e como tenho das coisas que já ouvi e vi.
Não estou pedindo emprego, é só um desabafo, fico sozinha maioria do tempo aqui em casa, escrevo muito em cadernos que são meus amigos de confissão. Tenho 6 cachorros adotados das ruas, meus amores. Não tenho mais porque não tenho espaço senão.. fico indignada com o que o ser humano é capaz de fazer, abandonar um animalzinho velhinho, doente, aleijado na rua. E eles ficam alí esperando o dono voltar, dias e dias na chuva, no relento no escuro, fieis. Bom, é isso, não dá pra escrever tudo que tudo que a gente sente, a cabeça dispersa por um bater de porta, uma preocupação, um afazer.. mas obrigada por quem quer que seja que criou esse site.

