Eu confesso que sinto muita raiva da minha mãe. Quando eu era criança ela se separou do meu pai e sempre disse que o motivo foi o quanto ele bebia. Daí pra frente só pintou meu pai como um cara horroroso e irresponsável que sempre chegava bêbado em casa. Nessa época, dos três até uns oito anos de idade, ela ainda era minha inspiração e acreditava que era assim que eu deveria ser. Porém quando cheguei na escola e comecei a socializar e falar de casa, vi muitos dos meus comportamentos rechaçados e tive que fingir uma personalidade para que os colegas me respeitassem. Aí percebi que ela não era esse modelo de vida todo. Vi o quanto ela falava de palavrão para mim, uma criança; vi que ela vivia para o trabalho com meu tio e não se importava com meus questionamentos infantis. Mas essa foi a fase boa. Minha adolescência chegou junto com a menopausa dela. Sempre apanhei na infância, claro que na adolescência não seria diferente. Até porque comecei a questionar os métodos dela. Sem instrução familiar, eu pensava que o que faltava em casa para que as coisas dessem certo fosse a presença de um homem, um marido e iniciei minha vida sexual muito cedo por conta disso. Em casa, ela não fazia nada. Tínhamos uma gata que encontramos na rua e ela dizia que levaria pra castrar – nunca levou – e essa gata deu filhotes que deram filhotes que deram filhotes e a casa era um antro fétido de gatos, ela não podia passar um pano na casa uma vez por dia; não lavava uma louça, não cozinhava uma comida. Chegava do trabalho e eu, que com dez anos comecei a ficar completamente sozinha em casa, quem tinha que fazer a janta pra ela e lavar a louça e limpar merda de um monte de gatos pela casa inteira. E se não fizesse, apanhava. Porém, eu não fazia. Achava (e ainda acho) um absurdo ter que me responsabilizar pela vagabundagem daquela mulher. Todos os sábados ela levantava cedo e me acordava aos berros para que eu levantasse e fosse ajudá-la. Ajudar minha mãe consiste em fazer o que ela mandou, mas do jeito minucioso dela e, se não fosse feito adivinha? Apanhava. E apanhei muitas vezes. O trabalho dela não é um trabalho justo: meu tio abriu uma empresa há 20 anos, onde ela trabalha de segunda à sexta (e sábados e domingos e feriados se for necessário) e não tem salário fixo, ela dá duro, vai doente pra lá e tira o quanto ela conseguir no fim do mês, geralmente uns mil reais. Ela não é registrada, não consegue se aposentar e odeia aquele lugar, mas também não vai atrás de outra coisa pra conseguir renda. Quando chegava em casa (isso já faz muito tempo que acontece), na época da minha adolescência/menopausa dela, só sabia reclamar. Comia o que eu tivesse cozinhado e ia deitar. Nunca me agradeceu por ter feito nada, nunca elogiou nada, mas fazia questão de me xingar diariamente por eu não ter lavado a louça, não ter arrumado o quarto, não ter catado quilos de merda. Enquanto isso, eu via meu pai eventualmente, sempre com olhos frios para ele, nunca quis prestar atenção naquele homem de quem ela debochou por tantos anos. Com treze comecei a beber e fumar cigarros, ela nem percebia. Falava que ia ao shopping aos sábados e ia beber e fumar com "amigos". Larguei a escola pra lá, fazia o necessário para passar de qualquer jeito mesmo. Comecei a namorar pra poder sair de casa mais vezes, namorei dois caras seguidos e sempre traí os dois. Ela me falava muito de sexualidade desde a infância, como "dar a buceta é bom mesmo, mas se eu aparecesse grávida ia apanhar muito", graças a Deus e ao cuidado que sempre tomei nunca engravidei. Mesmo assim, vivia beijando vários caras. Da escola, mais velhos, saía com vários e ela nunca percebeu. Mentia na cara dela tudo o que eu ia fazer, já que ela não se preocupava em filtrar a verdade das minhas aprontadas e vivi sem limites a vida toda. Tive que aprender a me limitar quando fui pra faculdade. Estudei o suficiente pra entrar em uma universidade pública com 17 anos. Essa universidade fica a 500km da casa dela, então tive que me mudar. Em 3 meses gastei em bebida e porcarias todo o dinheiro que tinha guardado durante a adolescência. Nunca consegui estabelecer um vínculo de amizade duradouro. Sempre era uma grande amizade que acabava em segundos de tanta merda que ela falava na minha cabeça sobre a pessoa só andar comigo por não ter mais ninguém pra andar. Quando levava algum amigo ou namorado em casa ela passava o tempo todo me criticando e me xingando pra pessoa. Sinto raiva. Ela não tem vida social, a família não suporta a negatividade dela, o quanto ela reclama da vida e não faz porra nenhuma pra mudar nada. Ela tem dores na barriga, nas pernas, nas costas e não vai ao médico por ser preconceituosa demais pra ir no SUS. Não falei que da adolescência pra cá a situação financeira dela caiu muito e isso a tornou ainda mais irritada. No final da adolescência me aproximei do meu pai. Comecei a escutar o que ele tinha pra dizer e vi quem ele era: um homem que trabalhou durante a vida e ascendeu com sucesso financeiramente. Ele sempre bebeu, é verdade, mas tinha dinheiro. Quando eu nasci, ele teve alguns problemas com a empresa onde era sócio e saiu, deixando todo o salário pra trás. Aí minha mãe botou ele pra fora depois de 10 anos de casamento. Ou seja: o argumento dela de que ele era um bêbado vagabundo não serve pra nada. Ele sempre gostou da birita e nunca foi problema pra ela né? Só botou ele pra fora quando acabou a grana. Cínica. Voltando à faculdade, eu me reinventei: meus preconceitos introjetados por ela foram desconstruídos, aprendi a lidar com as pessoas de forma menos desesperada, passei a beber pouco e fumar maconha (aos moralistas: maconha não é um monstro assustador que leva pro crack. É uma planta que relaxa e aumenta sua percepção do mundo), nunca usei outras drogas. Fumo maconha hoje pra relaxar no final de um dia de estudo. Sinto dificuldade pra estudar de fato, já que não pratiquei isso durante minha adolescência inteira. Agora faço psicologia (um curso que também me mostra como uma mãe precisa cuidar de um filho para que ele seja uma pessoa forte e independente no futuro), sei o valor de uma vida humana e sei o quanto a falta de atenção dela ME FODEU. Quando volto pra casa dela pra visitar ela ainda grita e me xinga e eu retruco. Ela não faz nada pra mudar a vida dela de lugar, dar um rumo que preste. Nunca foi me visitar na cidade onde moro e já estou quase me formando. Tenho uma bolsa de auxílio na faculdade que não dá pra muito, mas pelo menos não dependo dela. Não posso trabalhar por conta de o curso ser integral, mas aumento a entrada fazendo bico de garçonete em bares durante a noite. Meu pai me ajuda muito, me ama muito e eu o amo muito também. Conversamos quase todo dia e ele entende o que eu passo, pois passou por isso por um bom tempo antes de mim. Pelo menos ele conseguiu se livrar. Quando estou na casa dela sinto muito ódio. Quando ela chega do trabalho meu coração acelera em raiva, mas eu controlo. Aí ela começa a reclamar sem fim do trabalho ou de mim por não ter feito alguma coisa na casa dela e eu me irrito mais e mais e mais, mas tento evitar uma discussão. Pois bem, resolvi começar a ajudá-la. Ela se mudou com dois cães pra uma casa menor e, depois de mais de 1 ano e meio ela não desempacotou nada e ainda transformou o quarto onde eu fico quando visito em um depósito de caixas sujas de tralhas como sapatos e roupas velhas que ela nunca mais vai usar. Isso é outra coisa: ela é pobre e extremamente consumista. Tem um armário gigante lotado de coisas, mais uma montanha enorme de roupas "pra passar" que ela nunca passa. Ela compra sapatos e mais sapatos, usa uma vez e nunca mais. E ela não tem vida social e critica as mulheres divorciadas que tem, fala que são umas vagabundas que não ficam por aí "dando a buceta e caçando macho". Só dorme. De sábado, depois da rotina de limpar a casa, deita e dorme feito um porco, acorda e reclama. Quando vai dormir à noite, não consegue e me acorda pra me xingar porque não consegue dormir. Meu, a lista é extensa demais. Já tentei conversar de diversas maneiras. Já sentei com ela pra falar, já pedi ajuda de uma tia (e depois que minha tia conversou com ela eu apanhei tanto que acho que foi o dia que ela mais me bateu), já gritei e já falei calmamente sobre ela precisar ter mais carinho pela única filha que ela botou no mundo e que suportou e ainda suporta a companhia dela. Ela não tem amigos nem familiares que gostem dela, só tem a mim e vive de me humilhar sem nenhum sentido. Queria conseguir me afastar, mas quando estou longe ela muda. Me liga calma, posso falar sobre meu dia a dia (claro que ainda escondo muita coisa), parece até que ela se importa. Mas é só eu chegar aqui que começam as agressões e a estupidez. Bem, é minha confissão. Obrigada por ter lido e dê valor à sua mãe se ela for carinhosa e amorosa. Essas são raras de se ver.

