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Sinto Vontade de Ser o Nada

Começou assim: vi que bebia do universo. Parece que estou sempre sonolento, próximo a ideia da morte. Vocês conseguem entender isto? Não é complicado…
Se minha escrita parece confusa, peço paciência. Quero confessar direito.

Tendo a refletir muito sobre a existência do meu corpo. A finitude dele, o sofrimento que sinto, o vazio que invade em momentos inesperados, a força do amor e a força do ódio. Meu corpo é um invólucro – ou templo – por onde tudo passa. Amigos, amigas, desejos e cansaço. Cada experiência é um rumor que se espalha neste templo e eu, motivado pela curiosidade de criança, investigo lá no fundo o significado que dou para tudo. Esta é primariamente a atitude que tomo diante da vida, a de um receptor sem barreiras. Costumo pensar que tudo cabe em mim.

Já viram, né? Quando olho para o lado, vejo pessoas mais ativas do que receptivas. Tomam escolhas, têm opiniões, julgam através delas mesmas, concluem raciocínios, direcionam a própria vida, fazem análises sobre os outros e sobre a humanidade. A imagem que tenho delas – e isto inclui boa parte da minha família, pessoas que estão lendo isto aqui e aquelas com quem convivi e convivo desesperadamente – é a de pessoas decididas e firmes. Quase como cavaleiros ou imperatrizes que impiedosamente abrem o próprio espaço no mundo e nele penetram a própria vida.

Observem a antítese… Sendo um corajoso receptor que sou, deixo ser invadido por todas estas figuras escabrosas. Invadido por elas, tomado nos braços pela força alheia.

Vou explicar como às vezes enxergo a morte. Vejo a morte como a desfragmentação da consciência. A experiência de o experienciador deixar de ser um pra ser tudo. Como ainda estamos vivos, tudo o que temos é uma pseudo-morte. E eu tô quase sempre aí, neste limiar entre ser algo e querer deixar de ser algo.
Uma vez meu vizinho me disse: "O ato de negar algo é o que te define". Quando diz "não" para a violência, assume para si a identidade do ser-que-se-opõe-à-violência. Dizer "não" para um vício é se responsabilizar por uma vida sem o que você considera vicioso. Se dissesse "sim" pra tudo, então nada seria.

E aqui chegamos. A impressão que tenho é que sou um recém-nascido, bebendo do universo, próximo da ideia da morte. Estou aberto e imensamente aberto pra muita coisa. Não é à toa que me consideram "compreensivo", "empático", "é psicólogo?". Acolho fácil, tal como um recém-nascido acolhe o mundo.
Dentro desta coisa maternal (ao meu ver), tenho um coração que parece festim. Difícil não sentir à flor da pele quando se está aberto para tudo. A tristeza é forte, a culpa come meu estômago, a felicidade irradia, o vazio me paralisa e não raro tenho vontade de chorar pela emoção em si. Quero dizer, a raiva quando vem, é tão insuportável, tão virulenta, tão forte, que desejo chorar por não aguentar a intensidade da dor que ela provoca.

Resolvi começa a escrever isto aqui poque ontem, andando por aí, me passou uma pessoa. Nem olhou na minha cara; desviou a atenção para o chão e passou reto. Foi uma flechada no estômago… e pior, recheada de veneno. Fiquei mal por pelo menos uma hora.
Ao mesmo tempo em que adoecia por uma coisa que considero tão pequena, me remoía observar a reação do meu corpo. Olhei pra ele e, cansado de sua intensidade, pedi que parasse por alguns dias, que eu já não aguento mais esse sufoco. Como algo tão desprezível e pequeno diante da imensidão do amor de quem me ama pôde me colocar pra baixo deste jeito?

Odeio meu corpo. Odeio a fúria que ele produz. Odeio com todo meu ódio a produção que a natureza me fez. Tudo tão dramático e doloroso.
E por que tudo dói? Porque como disse, tudo entra, Não tenho barreiras. O olhar de uma pessoa pode me penetrar, invadir e causar uma confusão desgraçada. A opinião reverte meu sistema de mundo. A postura de alguém mexe demais comigo.

Os momentos em que menos sofri foram aqueles em que simplesmente observei a opinião pessoal de alguém e a desprezei, como se não fizesse sentido algum. Quando neguei o outro, fiquei bem. Mas não gosto desta atitude; um lado meu quer de verdade acolher a humanidade inteira. Só que este abraço está me destruindo. Ao invés de ir armado para o campo de batalha, jogo a fora a lança e a armadura. Sou furado, espetado e empalado.

Respirei fundo agora. Toda esta situação é muito triste pra mim. Ainda não acostumei com a ideia da "criação de espaços pessoais".

Agora vem a parte da confissão. Tenho vergonha de admitir. Há alguma força que quer ser o sustentáculo da humanidade, e o faria em muitas condições, mesmo as mais desprezíveis. E não há nada de incrível nisto; é apenas a consequência de querer acolher o mundo…
… e se desejo acolher o mundo, então nada devo ser.

Quero ser um imenso nada. E isto está me sufocando.
Haverá a parte dois.

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Escrito por Anônimo

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