Eu sou feia demais. Gorda e deformada. Quando era adolescente, cheguei a ser cuspida na escola. Depois de adulta, nunca fiquei a vontade para sair ou fazer amizades.
Sempre fui estudiosa e passei em um bom concurso. Namorei pela primeira vez aos 31 anos e engravidei. Como ele não gostava realmente de mim, só das mordomias que eu lhe dava, nós terminamos.
Agora, aos 35, sou uma mãe solteira, que só vive pra trabalhar e cuidar de uma criança. Além, é claro, de continuar feia, sem amigos, sem ninguém (minha mãe é meio louca, mora comigo, e meu pai nunca esteve presente).
Só meu filho me prende a essa vida. Eu o amo, mas estou muito cansada. Mesmo no trabalho sou hostilizada, motivo de chacotas pelo meu comportamento estranho. É que não aguento mais… especialmente as piadas dos colegas, sobretudo dos homens.
Não paro de pensar em tudo que eu deixei de viver e no quanto eu já fui humilhada pelos homens. Penso constantemente em suicídio e sei que tenho coragem pra acabar com todo esse pesadelo, pois já me feri feio várias vezes e não senti nada. Já providenciei toda a papelada para meu filho e minha mãe receberem a pensão pela minha morte, quero deixar tudo pronto. Pois minha vida não vai melhorar.
Peço perdão a meu filho, mas, realmente, não consigo imaginar como continuar vivendo uma vida desprovida de amor. Acho melhor que ele seja criado pelo pai e pela minha sogra dos infernos, que, aliás, foi outra que me humilhou pela minha feiúra.
Enfim: vou morrer sem que nenhum homem tenha me desejado minimamente. O que faço para continuar vivendo, com essa cara deformada, esse corpo que eu mesma não suporto? Vou ficar tomando antidepressivos indefinidamente? E quanto a Jesus: ele nunca me amou. Ele me abandonou quando eu nasci. O que faço para não abandonar meu filho? É tão difícil…

