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Tenho mágoas da minha mãe

Boa noite a todos, fico triste em escrever o que estou prestes a escrever mas aqui vai, vou tentar resumir a minha situação familiar o máximo possível. Sou a filha mais velha, tenho 26 anos. Sou casada, ainda sem filhos, moro com meu marido. Tenho um irmão de 15 anos, que mora com meus pais. Tenho raras boas lembranças dos meus pais. Meu pai sempre viajava devido ao seu emprego, era muito mulherengo então quando não estava viajando, estava procurando mulheres por aí. Minha mãe era "presente-ausente". Estava ali em corpo apenas. Não me recordo de carinhos, conversas, bons momentos. Começa aí algumas das mágoas que nutri pela minha mãe. Agora vamos à ela: bem sucedida na carreira, odeia todo e qualquer serviço doméstico, não se "realizou" sendo mãe, viciada em trabalho, não dispõe de tempo e interesse para cuidar dos filhos. Ela dividia o seu tempo em duas partes: trabalho e marido. Quando digo marido, leia-se deixar as crianças sozinhas e com vizinhos pra sair atrás do meu pai nas noitadas dele por aí. Nessa brincadeira toda, meu irmão nasceu quando eu tinha 11 anos, e adivinhem quem teve de assumir o papel de mãe (além do de dona de casa, que eu também assumi muito cedo)? O tempo passou, criei meu irmãozinho, cuidava da limpeza da casa, da comida, da escola… Pelo menos pra eu poder estudar ela contratou uma babá por meio período naquela época, mas empregada não pois não tínhamos condições. Então alguém tinha que fazer né? Enquanto isso meu pai viajando, seguindo a vida de noitadas e minha mãe trabalhando, correndo atrás dele e se afundando no sofá pra assistir filmes intermináveis ou jogando jogos de computador até altas horas… Meu irmão cresceu com muita carência de mãe, de pai. De mãe principalmente. Até hoje sinto muita tristeza quando lembro do quanto eu precisei que ao menos meu pai fosse presente naquela época… Apesar de eu fazer o que estivesse ao meu alcance, eu sou irmã… Não mãe, não pai. Quando meu irmão tinha 8 anos de idade, mais ou menos, começou a apresentar um comportamento diferente(Falava muito sozinho, não acompanhava a turma na escola, agressividade fora do comum, etc). Eu sempre desconfiei que tinha algo errado e alertava minha mãe, que não era capaz nem de tirar os olhos da frente da TV ou computador enquanto respondia: é coisa criança, você é louca, tá imaginando coisa. Quando a escola ligava(e ele teve problema em várias delas), ela simplesmente não acreditava. Mudava a escola, e se recusava a procurar um médico, psiquiatra, como era a recomendação de alguns professores. A família inteira via e alertava, mas ela aparentemente colocou uma venda nos olhos e tocou a vida
Meu pai nunca estava em casa, então por muitos anos me senti lutando sozinha. Quando ele voltava, a farra era mais importante, os amigos eram mais importantes. Por muitos anos tive muita raiva dele até que outro sentimento substituiu a raiva: a indignação pela minha mãe não ter se divorciado ou ao menos ter tomado uma atitude pelo bem de mim e do meu irmão. Afinal de contas se ele não se importava com a gente, pelo menos ela! Bem, até que eu comecei a namorar, meu atual esposo veio morar na nossa casa e quando tivemos condições financeiras, fomos morar no apartamento que compramos, ano passado. Até chegarmos nessa fase, quero relatar que foram anos de brigas e um verdadeiro inferno dentro de casa com a minha mãe, é tanta coisa que eu não sei nem por onde começar. Nos últimos anos ela e meu pai se afundaram em algo que acredito ser depressão… Dívidas e mais dívidas… Desânimo total, teve uma época em que nem banho tomavam mais. Sempre se recusaram a receber qualquer tipo de tratamento e diziam que tudo se tratava de apenas problemas financeiros. Fiquei com muita pena deles e resolvi ajudar, deixando minha mãe ter acesso à minha conta poupança pra qualquer emergência. Emprestei meu cartão e o resultado disso foi um carro pago com as minhas economias. Eu e meu marido ficamos devastados e demorou muito tempo para que pudéssemos nos recuperar desse "rombo". Até parar de estudar eu tive que parar. No meio dessa novela mexicana toda, a cabeça do meu irmão pirou, até que ele teve seu primeiro surto psicótico e tentou suicídio, 6 meses após eu e meu marido termos saído da casa deles. E foi só com essa tentativa de suicídio que ele foi diagnosticado de um transtorno mental que deveria ter começado a ser tratado há muito tempo, não vou colocar aqui a doença mas é sem cura, existe apenas controle. Parece que ele já havia manifestando sintomas há anos, porém o primeiro surto veio em decorrência dos problemas familiares. Bem, não preciso dizer o quão mal me senti. Responsável, culpada. Senti que isso só aconteceu porque eu havia saído do lado dele. Eu sabia que a nossa mãe não iria fazer o papel de mãe, como sempre, mas não achei que chegaria nesse estado. Quem o encontrou fui eu, havia ingerido veneno. Foi a cena mais traumática e desesperadora da minha vida. Ele ficou internado em estado grave e teve internação psiquiátrica após isso. Atualmente, eu e meu marido vivemos indo na casa deles, tentando ser mais presentes pelo meu irmão (sinceramente pelos meus pais, não faço mais questão), e meu irmão nos visitando. Recebemos muita ajuda de familiares, que pensam exatamente da mesma forma que nós dois: que meus pais são dois irresponsáveis e inconsequentes. Embora tudo isso tenha acontecido, ainda tento ajudar meus pais, que mais uma vez enfrentam a depressão e desistiram de lutar. É muito difícil. Sinto que o choque deveria ter sido muito mais forte em mim, que o encontrei, que o levei ao hospital com a ambulância, do que com os dois. Tudo bem, são pais. Mas porque eu, que vivi essa experiência, tive de sacudir a poeira e enfrentar a casa da minha mãe parecendo um chiqueiro no dia seguinte, com a cara e a coragem, pensando no bem estar da minha família, enquanto os dois não podem por exemplo, colocar um copo na pia pois ainda estão "muito abalados"? Aparentemente estar abalado é desculpa pra tudo o que fazem(ou melhor, não fazem) ultimamente. Cheguei a um ponto em que de uma vez por todas admito: se meu irmão não estivesse mais aqui, eu não olharia mais na cara de nenhum dos dois. Principalmente na cara dela, pois a gente desde pequeno procura sempre o colo da mãe…. E quando a gente não encontra, é muito triste. O pior é que a recíproca é verdadeira. A ingratidão dela comigo não me machuca mais, as ofensas, o ódio, as brigas. Eu já cresci, estou construindo minha família, tocando o barco. O que machuca é saber que existe um menino doente que precisa da mãe e ela não tá nem aí…. Meu pai, idem. Sinto que a cada dia que passa estou enojando meus pais e sinto um misto de culpa e tristeza com isso tudo. Estou cansada… só queria ter uma família normal em que eu pudesse ser a filha e irmã, e não a mãe de todo mundo. Desculpem o desabafo longo, eu precisava. E isso que resumi! Um beijo no coração. Diga que ama seus filhos, demonstre! Mesmo que eles não digam, pode ter certeza que faz falta.

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Escrito por Anônimo

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Acordem pra vida

O parabéns está ligando para mim