E assim terminara aquela sexta-feira do paulistano ansioso… Nervoso. Conhecera uma mulher diferente no trabalho. Linda, cativante, inteligente. Claro, como qualquer homem quer. Mas ela tinha um algo a mais que ele gostara: talvez sua incrível capacidade de comunicação com as pessoas e sua incrível simpatia. Combinaram de sair juntos mais uma vez, pois sempre por algum motivo nunca se encontravam. Ótimo. Antes de se encontrarem, ele fora almoçar na tradicional rede de lanches americana que domina a sua metrópole. Comeu. Procurara algum sinal de vida da moça no celular. Nada.
Seu incrível sorriso com covinhas que, com aqueles belos cabelos castanhos claros e cacheados, além de sua voz levemente rouca, davam um ar bem sexy. Fora suas curvas, juntamente com aquele seu busto abençoado pela natureza, faziam nosso paulistano pirar. Aquele jeito de desentendida com tudo que ela tem deixara nosso amigo ainda mais louco.
Ansioso, nosso herói andara pelos quarteirões esperando alguma coisa, alguma mensagem. Nada. Acompanhara seus programas favoritos pelo rádio para ajudar a passar o tempo. Nada. Fora jogar na Mega Sena. Lindo! Agora sairia da pindaíba… Acreditara que de algum modo teria mais sorte ali do que com a tal moça que sempre pensara. Claro, mais uma vez batera o olho no seu último modelo de Smartphone. Nada.
Fora em outra lanchonete. Dessa vez escolheu a concorrente. “Já que não tenho companhia, vou conversar com as colegas atendentes”, pensara. E assim nosso herói foi. Passaram-se uma, duas, três horas. Acompanhara o jornal das seis pelo rádio. E nada. A ansiedade chegou ao máximo por uma resposta. Comprara um maço de cigarros, mesmo sem o hábito de fumar. Exigente, comprara a melhor marca… Ascendeu o primeiro. Voltara a caminhar.
Passara pelas mais diversas lojas, botecos, bancos, restaurantes. Cumprimentava os conhecidos e revia as mesmas figuras da avenida próxima ao marco zero: ambulantes, entregadores de panfletos – sim, era época de campanha eleitoral –, taxistas, mendigos, estudantes, advogados, aposentados. E nada. Ascendeu e fumou o segundo, o terceiro, o quarto. Nada.
Mais tarde, falara com a mãe ao telefone. Sempre a mesma conversa. Ouvira as mesmas histórias e broncas de sempre. A tia iria fazer uma visita, mais uma vez… Dizia para não se esquecer dos parentes – mesmo os chatos! Mães… Chegara ao décimo cigarro. Chamara a atenção das figuras que ficavam na avenida. Era a quinta vez que passara em menos de uma hora. Nada.
Entrara numa padaria. Tomara um energético feito na hora pelo Brucutu com caneta atrás da orelha, pano de prato no ombro direito, bem sujo, é verdade, e com forte sotaque nordestino. Uma figura caricata e até estereotipada, mas incrivelmente agradável. A moça dera o primeiro sinal de vida. A ansiedade se controlava. Olhava sua mão segurando aquele cigarro balançando a cabeça se reprovando, mas com um sorriso no rosto. Estava alegre. Verdadeiramente alegre, como há muito não sentira.
Conversaram. Riram. Mas sem um ouvir a voz do outro, pois são tempos de Whatsapp. Reforçara o convite para uma cerveja. Já passava das sete da noite. A moça sumira mais uma vez. Estava sem sinal? Não queria ir? Ela visualizara, mas não respondia. Voltara a ansiedade. Nada. Perguntara para si mesmo o que fizera de errado. Voltara aos venenosos cigarros.
Fora ao antigo bar que havia se encontrado antes com a moça uma vez após o trabalho. Mas queira algo mais íntimo, mais particular. Queria que fossem somente os dois. Não quis beber. Sentou-se na escadaria com ar de derrota. Queria falar tudo que sentira. Nada também. Ingênuo, imaginara as mais absurdas possibilidades para que aquele encontro ocorresse. Num momento, mesmo nervoso, brincou ainda com a moça – sempre usara o humor e ironia como forma mais sutil de crítica -, mandando uma última mensagem. Era conhecido pelos amigos como o bem humorado e ‘humorista’ da turma. Até fazia um certo sucesso. Mal sabiam sobre suas angústias e lágrimas que todo palhaço esconde de seu público.
Já não havia mais cigarros. Dera os últimos dois para um mendigo. Acabou se arrependendo. “Que absurdo! O que estou fazendo? Por que quero a atenção de quem não dá a mínima para mim?”. O jornal das sete acabara. Ainda esperou o horário de pico passar… Mentira. Esperara ainda uma última mensagem. Nada.
Fora embora se questionando, tentando entender como chegara a esse ponto. Merecia isso? Talvez… Lembrara quando ainda era um idiota adolescente e tinha "audiência" da turma. Mas chegara a fase adulta. Sempre buscara ser ‘O Cara’ diferenciado… Atraente de alguma forma… Via inúmeras formas de se fazer diferente em um ‘mercado’ que dizem estar escasso. Nada. Terminara aquele dia ainda mais em dúvida em um oceano de ideias e formas de se entender o tal ‘mercado’. Coitado. Era só mais um dentre milhares de anônimos, ‘bons amigos’, Betas, que seguia de volta para casa. Ser bom, para ele, após ‘cair a ficha’, era o problema.
Ah, a moça ainda observa seu perfil no Whatsapp. Curiosamente ambos se observam em um curto espaço de tempo. Nosso herói, coitado, tenta sempre tomar à frente, a iniciativa para mexer com ela. Antes de dormir, já em casa, 03:30, em um ‘MIX’ de frustração e raiva por não saírem desse estado de ‘encarada virtual’, falara com ela. Mais uma vez ela observara. E adivinha? É… Pois é…

