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Uma nova vida

Eu sou (era) lésbica desde que comecei a minha vida sexual. Tive namorados na adolescência, mas todas as relações sexuais que tive foram com mulheres até então. E por algum tempo tive uma parceira fixa, alguém que já cheguei a chamar de “minha mulher” e vice-versa.

No início desse ano, voltando de viagem, sofremos um acidente grave. Perdi o controle do meu carro por causa de um pneu furado, batemos numa cerca primeiro e depois, rolamos num barranco e o carro ficou de rodas para o ar. Com os danos na lataria e a forma como ele caiu, fiquei presa no carro. A porta não abria e não conseguia tirar uma das pernas. Não tive cortes, fraturas nem sofri concussão. Os demais ocupantes conseguiram sair rapidamente.

Mas de tudo o que é relevante sobre esse acidente, aconteceu em seguida.

A minha namorada, assim que saiu, ignorou o fato de que eu estava presa e demonstrou uma preocupação quase exclusiva com a bagagem e as coisas dela. Sequer deu um telefonema para as autoridades para pedir ajuda. Quem fez isso imediatamente foi o nosso carona, uma pessoa amiga da família, que veio conosco, felizmente.

Ao sair do carro, correu até o meu lado para falar comigo, certificou-se de que eu estava consciente, tentou me tirar do veículo, mas ao perceber a impossibilidade, ligou para o 193 e deu todos os detalhes de onde estávamos. Enquanto isso, a “minha mulher” ficou sentada na mala dela.

Não sei quanto tempo se passou, mas um cheiro horrível tomou conta da cabine do veículo. Era gasolina. O “K” percebeu e ficou preocupadíssimo. O risco de incêndio passou a ser o nosso maior problema. E, pra piorar, ninguém passou e parou para nos ajudar.

O que aconteceu a seguir foi o tipo de coisa que eu admiro nos homens: determinação, ação, atitude.

O K mandou a minha mulher se levantar, ficar de pé na estrada e parar qualquer veículo que passasse. Deu uma bronca nela, chamando-a agir. Em seguida, foi ao porta-malas, arrebentou a tranca com pancadas de um pedregulho e pegou o que havia de útil lá. Com uma chave de rodas, quebrou o restante dos vidros do carro e usou paus, pedras e a chave como alavanca para abrir a minha porta.

Ele se machucou um pouco na lataria, cortou as mãos para arregaçar tudo e abrir espaço. Depois ainda teve que mover um pedregulho no solo para que ele pudesse se posicionar e me ajudar a sair. Em pouco tempo, isso permitiu que o meu corpo angulasse e desdobrasse a minha perna presa, conseguindo assim sair do veículo. Fiquei de pé, cinco passos e ouvimos um som característico. Não foi explosão, apenas o fogo tomando conta do carro. Virou cinzas e pó. Quando o socorro chegou, o fogo estava alto e tiveram que pedir mais ajuda para apagar.

Nesse tempo, não vi a minha mulher. Quando a encontrei, ela estava fazendo uma selfie conosco ao fundo.

Alguns dias depois do ocorrido, voltei para a casa da minha mãe. Deixei as coisas no apartamento como estavam, tudo o que comprei, paguei as contas e voltei ao início de tudo para recomeçar.

O K tinha se machucado um pouco, especialmente as mãos e os braços. Precisou de pontos em alguns lugares. Voltei a encontrá-lo, claro. Agradeci pela minha vida, pelas ações dele. Passamos a ter contatos regulares, depois saímos para jantar como amigos e, em algum momento, olhei pra ele de um jeito diferente, bem como percebi o mesmo olhar direcionado a mim.

Numa ocasião, quando ele estava claramente me paquerando, cheguei a brincar, tentei dissuadi-lo e disse: “da fruta que você gosta, eu como até o caroço”. Ele me olhou no fundo dos olhos, mas num nível que me desarmou completamente, e tive que me desculpar.

Aquele olhar era o de alguém que não estava falando de sexo, mas de cuidado, proteção, compaixão, companheirismo. É aquele olhar de quem não larga às mãos da gente quando estamos caindo ou na pior. Quem está conosco por sexo, não faz isso.

E continuamos a sair juntos com regularidade, falar ao telefone até tarde, até que um dia a minha mão buscou a dele quando fomos atravessar à rua. Foi instintivo, pois nele eu confiava para me proteger. Ele me olhou, sorriu e continuamos de mãos dadas por mais alguns passos. Mas eu ainda olhava para as meninas ao meu redor. Ele via minha cabeça se virando e comentava perguntando: gostosinha, né? Eu morria de vergonha, mas entendi, nas entrelinhas, que sim, eu olhava para os corpos e não para as almas que estavam ali.

Num final de passeio, ainda sem carro, ele me deixou na porta de casa. Como sempre, desceu para abrir a porta pra mim. Ninguém nunca tinha aberto a porta do carro pra mim, puxado a cadeira, cedido a vez… Ele sempre fazia isso e passei a me sentir especial. Meu lado lésbica tinha se acostumado à ser mais ativa do que passiva, o que também tirou um pouco da minha feminilidade. Eu usava jeans velhos, rasgados, tênis desleixados, cortes de cabelo masculinos, piercing no nariz…

Naquele dia em particular, deixei tudo em casa e, exceto pelo cabelo curto, nada daquilo estava comigo. Até me arrisquei a usar um conjunto de saia e camiseta da minha irmã. Quando me viu mais cedo, expressou clara surpresa, mas não disse nenhuma palavra. Jantamos, falamos de tudo um pouco, mas nenhuma palavra sobre o meu visual.

Ao abrir a porta, dei minha mão para ele, que a segurou levemente, me conduziu até o portão de casa. Abri e subi no degrau, quando me virei e, surtada, perguntei: não vai falar nada do meu novo visual?

Ele me olhou como daquela vez que me envergonhei, deu um passo rápido à frente como um gato que quer pegar o passarinho. No mesmo movimento, levou uma das mãos às minhas costas, me puxou para perto e ficou a uns dois centímetros do meu rosto. A outra mão foi para os meu cabelos após passar pela minha nuca…

Fui beijada tão docemente, que me senti num dorama koreano. Minha mente tentou resistir (“você gosta de mulher”…), um desejo de fugir surgiu, mas me contive e me entreguei. Pior, fiquei cheia de desejo sexual por ele. Meu corpo ficou quente, quando dei por mim, minhas mãos estavam no peito cabeludo dele.

Entramos no carro, seguimos para o apartamento dele e fizemos amor. Sexo com homem é muito diferente, eu só via pela TV, mas aquilo foi simplesmente a melhor coisa em anos. Ele foi delicado, preocupado, fez muitas perguntas, respondeu milhares (eu queria agradá-lo e ele a mim).

Eu não estava acostumada é com a perda do controle. Geralmente eu quem conduzo a relação. Ele estava no controle agora. Me dava ordens, me virava, me puxava para os lados…Quando me penetrou, foi minha primeira vez com um homem. Já tinha sido penetrada antes por brinquedos de sexshop, mas nenhum deles tinha vontade própria. Então foi muito diferente.

Quando terminamos, ambos estávamos satisfeitos um com o outro. Dei um telefonema para avisar onde estava e onde ficaria. Minha mãe pareceu surpresa no início, mas terminou com um “eu já sabia”. Dormi no braço dele, dormi muito, com uma sensação ótima de que estava segura. E dormi a noite seguinte também, e a outra…E fazem seis meses que durmo muito bem.

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Escrito por Valk

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