Eu confesso que minha vida perdeu totalmente o sentido. Tenho 22 anos. Moro numa pequena cidade em MG. Trabalho e estudo a noite numa universidade da cidade vizinha. Sempre fui um menino comportado, nunca fui de chamar atenção com atitudes que geralmente os adolescentes homens têm. Sempre fui mais reflexivo e mais quieto. Comecei a sentir que minha orientação sexual era diferente com 14 anos. Mas nunca demonstrei, sempre fui mais reservado. Sempre encontrei dificuldade em aceitar o homossexualismo, sinto que é vergonhoso e que não estou preparado para passar pelas situações preconceituosas que aqueles que assumem passam. Além disso sempre me esforcei muito para tentar mudar minha condição. Sempre tentei ser homem de verdade e não consigo mudar esse meu desejo sexual. Sofro muito por isso, não compreendo porque sou assim. Eu não queria ser assim. Queria ter uma vida normal, queria ter interesse por mulheres, queria ter esse interesse e essa necessidade naturalmente. Com 19 anos conheci um amigo que me ensinou muitas coisas em relação à vida. Me ajudou em muitos sentidos, me ajudou a ser uma pessoa mais humana, mais humilde. Mas ele nunca soube dessa minha orientação sexual. Muitas vezes até brincavamos com algum de nossos amigos que eram mais delicados e que tinham jeito de homossexual. Algumas vezes chegamos até a conversar sobre a questão do homossexualismo, mas nunca tive coragem de falar para ele sobre essa minha situação. Aos poucos fui amando cada vez mais esse meu amigo, mas era um amor que não estava relacionado a atração sexual, mas sim um amor “puro”, um amor afetuoso. O abraço dele mechia comigo, me fazia sentir diferente. Eu comecei a observar a forma dele se vestir e admirava o comportamento dele. O perfume que ele usava era o cheiro que mais me agradava. Eu olhava para ele e não encontrava defeito. Mas essa admiração não tinha ligação a ato sexual. Era algo mais relacionado com afeto, sentimento (não quero dizer que o ato sexual não seja afetuoso e sentimental). O amor que eu sentia por ele foi crescendo cada vez mais. Chegou a um ponto que eu não estava mais aguentando. Eu não demosntrava de forma nenhuma o que eu sentia. Demonstrava apenas o que era necessário para uma amizade. Mas eu acordava e era ele a primeira pessoa que eu pensava. Quando eu viajava e ia a algum lugar diferente eu sentia falta dele e almejava muito que ele estivesse ali do meu lado. Mas sempre carregava comigo a certeza sofrida de que isso nunca poderia acontecer. Sempre tive o sentimento de que ele nunca estaria do meu lado, como meu companheiro. Por uma série de coisas eu pensava isso: por não aceitar uma relação desse tipo em minha vida, por saber que com ele seria quase impossivel ter uma relação assim, pois ele se comportava como um homem, por muitas outras coisas… Fique quase dois anos sustentando essa amizade e sofrendo muito, bastante mesmo. Com 21 anos eu precisei mudar para outra cidade e ele ficou na sua vida normalmente. O sentimento me acompanhou e me faz sofrer até hoje. Ele não sabe do meu sentimento. Não sabe o que sinto por ele. Até hoje todos os rapazes que vejo na rua e que se parecem com ele me faz lembrá-lo e sofrer. Não tenho relacionamento com ninguém, nem homem e nem mulher. Me sinto muito sozinho e sinto que estou fadado a sofrer pela vida inteira. Não consigo amar outra pessoa. Não consigo sentir o mesmo afeto e o mesmo interesse que tenho por ele em outra pessoa. Quando entro no carro olho para o banco do lado e sinto uma dor muito grande no coração por saber que ele poderia estar ali e não está. Lembro de tudo que ele me ensinou. Lembro do rosto dele sorrindo para mim, lembro do cheiro dele nas blusas que as vezes ele emprestou para mim. Lembro do jeito dele andar. É um sofrimento que somente eu sei o quanto é dificil passar por ele. Como eu gostaria de ter o carinho dele, o abraço dele. Como gostaria de ter ele perto de mim. Minha vida não tem sentido desde que coloquei para mim mesmo que é impossível ter ele do meu lado. As vezes ainda me iludo pensando que eu poderia ter ele do meu lado, mas isso é extremamente menor do que as vezes que penso na impossibilidade de tê-lo. Acho que na vida a maior injustiça é não termos controle de definir o dia que deveriamos deixar de viver. Isso deveria ser por nossa conta. Eu mesmo já não tenho mais sentido de viver, não vejo sentido nas coisas mais. Faz mais de um ano que perdi completamente a vontade de viver. Aqui fico na esperança de que logo chegue minha hora de morrer. É isso que quero, e acredito que será essa a solução das coisas para mim.

