Como dizia Mario Quintana: "Autodidata é um ignorante por conta própria". Pois bem, começo minha confissão admitindo que não aguento mais. Agora o que eu não aguento mais é minha dúvida, não sei se não me aguento mais ou se não aguento mais as pessoas que me rodeiam…Pois bem, sou estudante, estou no 3º ano do ensino médio, considero-me um atípico estudante de escola particular: chato, antissocial e com perspectivas. Isso me estressa. Meus colegas, um bando de ignorantes, vivem de vagabundagem, são uns imprestáveis, mimados e com esperanças paralelas, alguns serão advogados (os doutores sem doutorado), outros médicos (formados em faculdades de segunda linha), o restante não sairá da barra dos pais.
Meu fracasso em tentar solucionar o problema de ter colegas imbecis falhou estrondosamente algumas vezes, no 1º ano até tentei fazê-los enxergar o quanto eram imprestáveis, por ordem do professor fiz um discurso de 5 minutos para a turma toda de como ser um aluno excepcional, de como estudar e ser bom naquilo que faz: falhei miseravelmente. Alguns meses depois, peguei alguns alunos colando, fotografei, fiz uma resenha, editei um vídeo e enviei para o colégio inteiro, resultado: ninguém deu a mínima, tampouco os professores que até acharam graça.
No 2º ano senti que minha tarefa de transformar aqueles pobres alunos em pessoas inteligentes e respeitadas seria um pouco mais árdua, pois são tempos modernos, ninguém mais liga para ética, moral e educação, com 16 anos de idade você já se imagina dono de seu próprio nariz e não aceita mudar seus ideais. Pois bem, precisei ir mais fundo, adotei técnicas mais robustas, tentei ser persistente, a cada prova pegava minha nota e esfregava na cara de cada aluno, tentava fazê-los chorar por dentro de ódio de ter tirado notas tão insignificantes em relação a minha, ofendia-os, rebaixava-os, tentei ser o mais perseverante possível, porém fui vencido pelo cansaço. Nunca tive apoio de ninguém, meus pais pouco se importavam com meu desempenho escolar, quando ganhei meu primeiro prêmio na escola, lembro-me como se fosse hoje, minha mãe simplesmente o ignorou e disse: "não me incomodes com nada menos que um Nobel de química..", um trabalho difícil para um jovem, na época com 15 anos. Minha mãe tem um doutorado em química analítica, meu pai não chega a tanto, é formado em biomedicina, ambos passam mais tempo longe um do outro do que juntos.
Eu já tentei mudar minha forma de ser, vencido pelo cansaço e sem perspectiva de acumular algum êxito diante da ignorância que se abastecia ao meu redor, resolvi juntar-me aos desajustados: "Se você não pode vencê-los, junte-se a eles", tentei ser um perdido. Minha primeira experiência era não estudar para um exame de Língua Portuguesa que teria na semana seguinte, tentei ao máximo fugir dos estudos, fiz tudo que um baderneiro de 16 anos costumava fazer: comecei a prestar atenção mais nos colegas ao lado do que nos professores, não fazia mais anotações das aulas, não fazia mais as atividades propostas para depois da aula, chegava em casa e ligava a tv e assistia qualquer coisa que estivesse passando só para não pegar o livro e/ou o caderno. No dia do exame fui sem dormir 8 horas, fiz meio que automático, eu esperava poder chutar, mas como era discursivo não tive escolha, tive que ler tudo. Passado os dias saiu o resultado, quando peguei a nota em minhas mãos senti um remorso horrível, uma palpitação no coração, sabia que havia feito algo errado e sabia que seria para sempre. Não sabia se chorava ou se gritava, só queria que alguém naquele momento me confortasse, a nota nem era tão ruim, um B (mais que qualquer um naquela sala conseguia tirar mesmo com cola). Fiquei com compunção, não obtive frutos, não consegui nem tirar uma nota insignificante, e pior temia que meus pais soubessem um dia que fui capaz de ficar com média abaixo de A+.
Bom, meu 2º ano também passou, não consegui desenvolver minha ideia, não consegui adestrar meus colegas e nem me encaixar no mundo deles, esperava por tempos mais prósperos no próximo ano.
3º ano: não cheguei tão determinado a conseguir impor minhas condições de inteligência aos meus colegas desesperados, sabia que quanto mais desencorajado fosse, maior seriam as chances de obter uma vitória. Dei tempo ao tempo, a cada dia tentava introduzir minha doutrina, trouxe os professores para o meu lado, a cada dia matutava um modo em minha cabeça de obrigar essas pobres almas a aceitar a realidade e expandir suas mentes para o estudo sistêmico. Em um belo dia, logo após a entrega dos boletins saí da sala para ir ao banheiro, convencido de que as notas dos meus colegas, que acabara de ver, eram uma vergonha e de que eles deveriam ser punidos, desviei-me do caminho do banheiro, fui até a secretaria e peguei a pasta que continha todos os contatos dos pais daqueles pobres inscientes, ao mesmo tempo tomei emprestado o computador do colégio e uma senha para acessar os arquivos de todos os boletins. Com todo esse poder em mãos não podia fazer diferente, criei um grupo e adicionei todos os pais dos meus colegas e joguei lá todos os boletins com informações sobre os filhos, claro que tomei a liberdade de colocar um lembrete esclarecendo o motivo de cada nota ruim, além de uma observação classificando os filhos deles com "Insignificante", "Indigente educacional", "Futuro fritador de batatas do McDonald’s", "Perda total, devolva", entre outros. É claro que os pais iriam fazer algo, não iriam deixar impune: e de fato não perdoaram, o colégio levou 6 processos judiciais, perdeu 2, conseguiu negociar com alguns. E no fim das contas seus queridos filhos nem sem Xbox ficaram.
É meus caros, vivemos em tempos remotos, os valores mudaram..o fim da minha história só o tempo dirá, hoje estou de férias do colégio, é claro que até agora não descobriram que fui eu que fiz aquilo, suspeitam, mas como não tem provas não podem fazer nada. Semana passada chamaram-me para prestar esclarecimentos sobre um possível bullying, eles alegaram que a culpa da turma ser tão revoltada e péssima é por minhas tentativas frustradas de impor um "sistema", é claro que não dei a mínima moral para aquelas acusações sem nexo e sem provas, afinal de contas, como poderia ser culpado por algo que repudio? acho que minhas notas falam por si só. Mesmo assim, fiquei indignado como o colégio pode me julgar por tentar ensinar seus alunos a serem alguém na vida…
Acho que vou parar por aqui, vou deixar meus colegas seguirem seus próprios rumos, serem os seres fracassados que querem ser, meu tempo está acabando, não perderei meu resto do ano (que a propósito é meu último no colégio) com seres inferiores (intelectualmente falando).
Eu termino minha confissão do mesmo jeito que comecei, eu não aguento mais!

