Eu confesso que hoje, 01 de janeiro, pedi à meia-noite que meu pai morresse. Convivo com o alcoolismo dele desde criança e, por eu ser a mais nova das 3 irmãs, peguei a pior fase e fui a que mais sofreu com isso.
Minha mãe sempre me usou, quando criança, para vigia-lo, mas isso incluía procura-los em bares. Quando eu achava, ele me comprava com um doce, um sorvete e até uma boneca. De um lado, ela me usava para saber sempre onde ele esteve e, por outro, ele me comprava com estes presentinhos.
Já presenciei bêbados de todos os tipos nestes bares; já presenciei meu pai traindo minha mãe pelo menos duas vezes; já presenciei meu pai tentando agredir minha mãe. Também já vi meu pai segurando uma arma apontada para a propria cabeça e também já o vi passando cantadas até nas empregadas.
Desde o auge do alcoolismo, há 20, 25 anos, ele só chegava tarde em casa, fazia brincadeiras sem graça comigo, como fazer cócegas, beliscar. Eu sempre odiei isso e até hoje, com 35 anos, quando alguém me belisca ou faz cócegas, sinto uma vontade imensa de morrer, pois tudo o que eu lembro é daquela época.
Como muitas vezes ele só chegava de madrugada, eu sempre deitava na cama da minha mãe. Um dia, meu pai chegou, bebado como sempre e deitou na cama. Ele levantou minha blusa e colocou a mão no meu peito. Eu tinha 11 anos, estava me desenvolvendo. Naquele instante, fiquei paralisada, com medo de falar, de respirar, de chamar minha mãe. Ele colocou a mão e dormiu, não fez nada de mais grave. No entanto, lembrar disso me fere brutalmente. Lembrar das brincadeiras dele me fere também.
Saí de casa aos 17 anos para fazer faculdade, so voltava para casa em ferias ou feriados prolongados. E todo dia era a mesma coisa: meu pai bêbado.
Eu me formei há 12 anos. Tive vontade de começar minha carreira na cidade onde nasci e cresci, mas pensar em conviver com meu pai novamente me fez desistir da idéia. Nao houve um dia sequer na minha vida que eu tivesse meu pai inteiro, capaz.
Não entendo como minha mãe, que está morrendo aos poucos, nunca teve coragem de sair de casa e separar dele. E tbém nao compreendo como minha irmã trata isso tudo como uma coisa normal, e diz “ele sempre bebeu, sempre vai beber e não adianta você ficar brava”.
Hoje, presenciei meu pai fazendo a brincadeira do beliscão em meu sobrinho. Isso me doeu muito e doeu mais porque a minha irma não fala nada, acha “normal”. Talvez porque ele nunca tenha feito isso com ela na infância.
À meia noite de hoje, ano novo, pedi em silêncio que meu pai morresse, para acabar de vez com todo este sofrimento. Estou me sentindo mal por ter pensado isso, mas eu já entendi que ele só deixará de ser um instrumento de dor em mim quando isso acontecer.

