É engraçado. Não imaginei que em algum momento eu fosse expor isso de algum forma forma na internet. Talvez o anonimato me deixe mais seguro para dizer.
Não estou nada bem. Já faz 5 meses que meu namoro terminou e ainda sigo sentindo tudo como se tivesse acontecido na semana passada.
Como era bom estar com ele. Apesar das nossas diferenças (e estas não eram poucas), eu me apaixonei muito por ele e aprendi a amar até o seu jeito burguesinho de ser. Seus sonhos altos, sua forma de encarar a vida… o sorriso. Ah, aquele sorriso. Lembro de uma vez que tropecei em minhas próprias pernas quando da janela de sua cozinha ele disparou. Aquele sorriso de dentes tão alinhados e bem cuidados. Sequer amarelado era apesar dos muitos maços de dunhill que ele fumava. Um sorriso foi o que bastou pra me desconcertar inteiro e amonhecar as minhas pernas que se desentenderam por um momento e brigaram uma com a outra.
Como eu sinto falta daquele sorriso. Do toque de sua mão alisando a barba em minhas bochechas. Ou do seu peito desnudo que abrigou minha cabeça em muitas e muitas noites.
Sinto falta das nossas conversas na varanda de sua casa, muitas regadas a cuba libre, vinho e marijuana. Muitas seguidas seguidas de amores silenciosos e ofegantes porque não se podia fazer barulho.
Como eu sinto falta desses dias.
De sua companhia que JAMAIS se recusou. Como no dia que fomos ao cinema, mesmo que não fosse seu programa favorito. Mesmo que ele tivesse dificuldade em se concentrar por mais de duas horas sem tabaco. Como foi engraçado o seu desespero ao acabar o filme procurando a saída do cinema para queimar logo o maldito do cigarro. Era engraçado. Eu adorava o cheiro se nicotina de seus dedos, mesmo sabendo que até ele achava isso muito estranho.
Já faz 5 meses. Não, não faz. Não pode ser. É impossível que tenham se passado tantos dias sem que haja alívio pra essa ausência.
O denguinho, o pretinho decidiu por fim a nossa história e alçar voos os quais eu não podia acompanhar. Ele sempre foi do mundo e pro mundo, de todos e pra todos e eu só queria o lar, sua parceria, a tranquilidade de uma vida a dois e só a dois. Mas ele sempre foi menino de mais e demais.
Eu sou bipolar. E sei o quanto é difícil suportar a vida com alguém bipolar. Afinal, não há nenhuma pessoa nesse mundo que passe mais tempo comigo do que eu mesmo e creio que essa condição foi determinante pra esse afastamento.
Ele, pavão. Eu, jabuti. Olha que armadilha da natureza.
Por fim, não só terminamos como perdemos todo o contato. Da última vez que nos falamos recebi a mensagem de que ele estava focando em si mesmo e em seus projetos. Foi dito que eu deveria fazer o mesmo… mal ele sabia que por ocasião meu maior projeto era pedi-lo em casamento…
Hoje respiro sem a sensação de estar vivo. Nada me interessa mais. Aguardo o tempo que meus pulmões, meu coração e as minhas entranhas compreendam isso e colaborem para o alinhamento do meu estado de espírito e a minha condição biológica de ser "vivo".
É só isso…

