Confesso que estou decepcionado. Quando fiz concurso para o banco, eu queria uma oportunidade de crescer na vida, fazer algo que me fizesse me sentir realizado. Esperei um ano e seis meses para ser chamado para trabalhar. Lá fui! Estava tão feliz. Hospedaram minha turma de treinamento num hotel de luxo na capital. Tínhamos alimentação e hospedagem inclusas. Tínhamos até despesas com as passagens para ir e voltar ao hotel. Parecia um sonho. Fiquei lá duas semanas.rnQuando cheguei à agência, logo comecei a ver como as coisas realmente fincionavam. Eu era um vendedor. Mais do que qualquer outra coisa, eu tinha que vender os produtos do banco. Produtos que eu mesmo não compraria na maioria dos casos. rnLogo percebi que o "treinamento" que recebi não servia de nada. Não tinham me ensinado nada de realmente útil lá. Eu teria que aprender tudo perguntando e lendo os normativos. Mas tinha um grave problema: éramos poucos funcionários para atender a todos os clientes. Por isso, meus colegas não tinham tempo para me explicar. Para buscar informações nos normativos, só em horário de trabalho, porque não permitem que levemos para estudar em casa. rnEu era, e ainda sou, cobrado a todo o tempo. Na minha segunda semana de trabalho, meu gerente me disse que eu tinha que desenvolver meu lado vendedor. Nas reuniões de "feedback" do meu período probatório, era sempre mais cobrança do que reconhecimento pelo meu esforço. Isso não seria injusto, se não fosse fato que eu não tinha recebido preparo suficiente para dar conta.rnCom o tempo, fui aprendendo. Eu gostava de atender os clientes. Vê-los sair de lá com seus problemas resolvidos. Mas percebi que isso era cada vez mais difícil. O banco era extremamente burocrático em tudo. Com razão, um simples cadastro era minuciosamente detalhado e validado com informações comprovadas com vários documentos. O problema é que tanto zelo demanda tempo e isso é o que não temos. Eu tinha que fazer o cadastro de forma rápida e correta, mas sem demorar. Eu queria que o cliente sentasse na minha mesa e aí eu faria o cadastro dele. Disseram, com razão, que eu não poderia fazer isso, porque demorava e tínhamos uma fila enorme para atender. Passei a deixar os cadastros para depois que a agência fechasse. A agência fechava às 16h e eu atendia até por volta de 16:30. Meu horário de trabalho terminava às 17h. Eram esses 30, 40 minutos que eu tinha por dia pra fazer os cadastros e resolver as pendências internas, como preparar documentação para liberação de empréstimo. Obviamente, não dava tempo.rnAlém disso, eu tinha que vender. E eu aprendi a vender. Consegui bater a meta mensal da agência num determinado produto por dois meses. Me senti satisfeito naquela vez.rnParalelamente, eu tinha que fazer cursos que o banco disponibilizava. Uma parte eu podia fazer em casa, a outra só na agência. Se não havia tempo nem para cumprir a demanda de trabalho, imagine para fazer cursos! Um dos meus gerentes chegou a colocar meta de curso para a gente fazer em casa. Ele não estava se importando com nosso crescimento profissional. É que os cursos que fazíamos contavam pontos no ranking da agência. Vários dos cursos que fiz em casa, ele contabilizou como se eu os tivesse feito em horário de trabalho. Isso nem me incomodava tanto, mas é algo que importa no conjunto.rnEu me sentia um mero apertador de botões. E, ao meu ver, é o que todos lá somos. De mim ao gerente. Somos meros executores. O conhecimento que nos é dado é o necessário para que façamos o trabalho. É um passo-a-passo, uma receita de bolo. Você apenas segue aqueles passos. Não há espaço, ou tempo, para inovar. Para pensar. Não nos pagam para isso.rnCansei de ir para casa com pendências que eu não tinha tempo de resolver, com problemas que eu não podia parar para tentar solucionar porque a fila sempre estava grande.rnA gota dágua foi quando comecei a trabalhar no caixa. Eu era o único. Tive treinamento por uma semana com uma colega que me ensinou tudo direitinho. Mas eu comecei a sentir meu coração apertar. Além de receber e fazer pagamentos, eu (e qualquer outro caixa) tinha que cuidar de várias rotinas internas. Tudo sem parar de atender a bendita fila. Tinha clientes até por volta das 16:50. Com o tempo que sobrava, eu tinha que fechar o caixa e passar o dinheiro para o tesoureiro. Ao passar, todas as notas tinham que estar organizadas e separadas. Eu também tinha que digitalizar os cheques que iam para compensação. Como eu não conseguia fazer isso dentro do tempo regular, tinha que pedir horas-extras, que, para o banco, são como sacos de sangue para doação. Ele só te dá em caso de emergência e, ainda assim, fica contando os minutos.rnAinda era meu trabalho processar os envelopes de depósitos feitos no auto-atendimento. Como o tempo era curto, eu chegava antes do horário e contava o dinheiro. Depois, já com o ponto aberto e dentro da jornada de trabalho, processava tudo, enquanto as pessoas aguardavam na fila. rnNo meu segundo dia no caixa, eu estava desesperado. Eu mal conseguia organizar minhas notas. Ali eu já sentia que não ficaria mais. Naquele mesmo dia, tinha acordado com o coração acelerado e sentindo falta de ar, apavorado com algo que tinha que fazer no caixa. Fui trabalhar uma hora e meia antes do horário, mas decidido a pedir demissão. Fiz o melhor que pude durante todo o dia, mas o medo e a angústia ainda me fizeram cometer alguns erros, que não foram graves.rnCom o apoio da minha família, resolvi pedir demissão, mas amigos me aconselharam a buscar um psiquiatra. Eu fui e ele me deu um atestado de quinze dias, que termina depois de amanhã. Segundo ele, eu tive crise de ansiedade e de pânico. O prazo que ganhei era para me tratar e pensar melhor sobre minha decisão. Deu-me um remédio tarja-preta e tliplicou a dose de um tarja vermelha que eu já tomava. Também passei a fazer exercícios com mais frequência. Também continuei com minhas consultas psicologicas mensais.rnMeu prazo está acabando e ainda não tenho certeza se vou tomar a decisão certa. Mas sei que não quero mais continuar passando por aquilo.

