Eu odeio minha vida. Eu odeio tudo que eu faço, e de alguma forma odeio o que eu ainda não fiz.
Minha vida foi maravilhosa até meus oito anos. Quando eu tinha oito anos minha mãe me apresentou uma filha de uma amiga dela, a garota era um ano mais velha que eu mas parecia que era uma adulta. Ela me perguntou se eu sabia o que era sexo, eu respondi o que eu achava ser sexo naquela idade. Ela me puxou, me levou pro quarto dela e colocou um pornô. Eu nunca falei isso pra ninguém, mas desde aquele dia ela ficava me mostrando vídeos de sexo e falava como se ela soubesse tudo. E ela tinha nove anos.
Isso já estragou parte da minha infância, mas eu comecei a odiar a mim mesma quando eu tinha nove anos.
Eu era uma boa aluna, na verdade a mais inteligente da classe. Era um ano novo, uma professora nova. A minha professora era incrível! Ela era legal, divertida e engraçada. Ela gostava de mim, e eu gostava dela. Mas havia alguém que não gostava nada de mim.
Uma garota a qual eu nunca tinha falado antes, mesmo tendo estudado com ela desde bebê. Ela começou a implicar comigo por causa de ciúmes da professora. Essa garota era horrível. Ela era hipócrita, odiava quando falavam mal dela pelas costas e ela sempre estava falando mal de alguém. Ela era arrogante, não dava pra conversar com ela, na cabeça dela só ela tinha razão.
Eu comecei a ficar triste, eu chorei várias vezes na sala de aula por causa dela, eu comecei a me afastar. Quando eu percebi eu só tinha uma amiga, mas pro meu azar, minha amiga era amiga dela. Eu fiquei feliz, minha amiga nunca me abandonou, ela não se importava se aquela garota não gostava de mim. Eu me sentia tão feliz…
Eu comecei a amadurecer do nada, eu adorava escrever poemas e eu era boa nisso, mas o que costumava ser poemas lindos se tornaram cartas depressivas
Eu comecei a ouvir músicas tristes e quando notei estava me cortando pela primeira vez. Com nove anos.
O ano se passou, eu amadureci de um jeito inexplicável. Eu pensava mais no que eu dizia, e de alguma maneira o que as pessoas falavam me afetava cada vez mais. Eu nunca entendi, eu era tão boa com todo mundo, porque eles me odiavam?
A professora nova era horrível. Era chata, arrogante e mandona. Eu fiquei contente. Ela não ia me perturbar mais. Errado.
Ela começou a fazer piadas de mal gosto, e ninguém nunca me defendia. Quando minha mãe foi reclamar com a diretora, a garota chorou e se fez de vítima, ela saiu impune e eu ainda tive que abraçar ela.
Todos a minha volta eram falsos. Eram criança idiotas, falando coisas idiotas, agindo feito idiotas.
Foi aí que eu comecei a me cortar freqüentemente. Por sorte ninguém nunca notou, mas se tivessem notado não se importariam. Eu sabia disso.
Eu desenhava bem, tirava boas notas, escrevia ótimas histórias, mas cada vez mais eu me odiava. Meus desenhos eram horríveis, minhas histórias eram fracas e minhas notas pra mim eram algo de vergonha. Ninguém nunca disse isso pra mim, sempre elogiavam tudo que eu fazia, eu comecei a achar que estavam debochando de mim. Eu cobrava muito de mim, nunca era bom o suficiente.
O tempo foi passando e eu fui para uma escola diferente do que aquela garota. Estava livre, mas ainda me sentia presa. Socializar era a última coisa que eu faria. Tantas pessoas se aproximaram de mim, mas eu sempre achava, não, tinha certeza que era por pena.
Eu odiava isso. Odiava as pessoas terem pena de mim, porque na minha cabeça, eu era melhor do que elas.
Eu virei uma adulta sozinha, faz cinco anos que não vejo minha família. Moro em um apartamento sozinha, não sei nem o nome dos meus vizinhos. Saio daquilo apenas pra trabalhar. Trabalhar…
Sou secretaria, recebo bem até.
Mas me arrependo. Nunca conquistei nenhum sonho meu.
Eu queria ter escrito uma música, ou até mesmo um livro. Eu gostaria de ter aprendido outras línguas, de ter viajado com meus melhores amigos.
Mas com o tempo, eu notei que minha única amiga era eu mesma, e eu estava começando a me abandonar. Não resta mais nada pra mim. Apenas minha vida idiota, a qual eu jurava que nunca teria. Talvez se eu tivesse enfrentado aquela garota quando eu podia, as coisas seriam diferentes.
Eu só não me matei ainda por que tenho medo, porque mesmo negando a mim mesma, eu sou um ser humano com sentimentos. Eu tenho medo. Eu só não tenho mais alegria.
Se você sobre bullying ou algo do tipo, avise a alguém. Não deixe que estraguem sua vida como eu deixei.

